Por Siro Darlan –

Série Presídios XV.

“Um homem como ele pensa sempre em esmagar, em estrangular alguém, em arrebatar alguma coisa, em privar alguém de um direito, numa palavra, manter a ordem por todas as formas. Desta maneira é que ele era conhecido em toda a cidade. Era-lhe em absoluto indiferente que os vexames provocassem rebeliões. Para esses delitos havia os castigos (há muitas pessoas que pensam como o nosso major!); com os canalhas dos forçados sói se deve empregar uma severidade impiedosa, cingindo-se à aplicação rigorosa da lei – eis tudo! Estes incapazes executores.”

Fiódor Dostoiévski – Recordações da Casa dos Mortos

A continuidade dessa série dará um espaço grande para um interno que resolveu desvendar toda sua experiência carcerária, e, por esse motivo, dividiremos sua narrativa em vários capítulos.

Aviso: Este livro contém relatos chocantes, cujo conteúdo pesado pode causar desde um desconforto até um choque nervoso ou mesmo transtorno de ordem psicológica em indivíduos de natureza fraca ou emocionalmente sensíveis. Portanto se você não quer sair de sua zona de conforto, esta leitura não é recomendada, pois é capaz de fazer ruir castelos de areia construídos na psique humana para substituir a realidade indesejada. Realidade esta, exposta nesta obra por um sobrevivente que por muitas vezes tentaram silenciar, mas que subsiste para dar testemunho da verdade acerca do que viu, ouviu, sentiu ou tomou conhecimento em primeira mão, dentro do Sistema Penitenciário carioca.

“Se o Estado atua à margem dos limites impostos pela lei, perde a superioridade ética com a qual se legitima para se contrapor às marginalidades alheias” (João Batista Damasceno – Doutor em ciência política pela UFF e juiz de direito)

João Batista Damasceno. (Divulgação)

Há cerca de vinte anos atrás, um jovem de dezoito anos decidiu que não viraria um mendigo, um morador de rua. Conhecia bem as ruas do Centro Rio de Janeiro, onde durante um ano trabalhara como delivery do Habib’s localizado na Av. Presidente Vargas, encravada no coração da capital carioca.

Durante esses períodos havia conhecido a realidade da Cidade Maravilhosa, aquela que não aparece nos cartões postais e apenas esporadicamente era veiculada nos meios de comunicação. Conhecia cada rua habitada por um mendigo diferente, sempre os mesmos nas mesmas ruas. Era clara uma divisão de território. Presenciou fatos ali que nunca mais seriam apagados de sua memória, um deles foi ver um velho urinando em um copo de Guaravita vazio, de baixo de um sol quente e em plena calçada que dividia as pistas da Presidente Vargas, e em seguida bebendo o conteúdo do copo, talvez para não morrer de sede no meio de uma multidão de pessoas que passavam e não se importavam nenhum pouco, se um velho bebia mijo para sobreviver na metrópole que vende para o exterior uma imagem de mulatas sambando sob a bênção de um cristo de pedra sabão.

Outro fato marcante fora um menino mulato de uns sete anos de idade aproximadamente que, estava sempre em um mesmo ponto da Av. Rio Branco, sentado no chão e chorando. Seu choro era silencioso, as lágrimas corriam por seu rosto parecia que o tempo todo, durante todos os dias que foi visto sempre no mesmo lugar. O que hoje faz lembrar uns quadros com pinturas de um menino chorando que diziam serem amaldiçoados – a casa que tinha um quadro daqueles se incendiava espontaneamente e o quadro permanecia intacto, era o que diziam a respeito desses quadros. Mas aquele menino que chorava na Av. Rio Branco não era um quadro, era real, mas ninguém se importava com ele. As vezes o jovem entregador se perguntava se era somente ele que via aquele menino ou se os outros também viam, e por que ele estava sempre chorando todos os dias e no mesmo lugar?

Presenciaria também as covardias sofridas pelos camelôs que eram espancados pelos guardas municipais, que vinham paramentados e em formação militar como se fossem enfrentar uma milícia armada, mas na verdade estavam ali para roubar e espancar os trabalhadores que tentavam ganhar o seu sustento de maneira informal.

Prefeitura do Rio de Janeiro apreende mercadorias no centro, e | Geral

Não pode deixar de ver também em uma ocasião um menor de rua com uma grande barra de ferro que seria usada como lança, nas imediações da Rua do Ouvidor com a 1º de março, com uma fúria assassina contra outro menor de rua, talvez porque este último que corria para salvar a sua vida, tivesse cometido o crime terrível de ter invadido o território alheio ou coisa semelhante.

Também conhecera as prostitutas que faziam ponto numa ruazinha que dava acesso a Praça Tiradentes, o que não é incomum no Rio de Janeiro. Porém, o diferencial naquelas mulheres é que eram velhas, feias, gordas ou magras demais, ou seja, fugia muito do padrão de prostitutas que geralmente são procuradas por homens que pagam por sexo. E mais uma vez o jovem se perguntava: “como mulheres como aquelas conseguiam ganhar a vida daquela maneira? Quem as procurava? E quanto cobravam? já que tinham milhares de concorrentes jovens e bonitas fazendo programa por quantias ínfimas?

Esse jovem de dezoito anos conhecia essa realidade bizarra e definitivamente não estava disposto a fazer parte desse quadro, ao se tornar um pedidor de esmolas, mais um para dormir debaixo das marquises em cima de pedaços de papelão, correndo o risco de ser morto como o foram os meninos na chacina da Candelária ou ter o corpo incendiado para a diversão se um playboy drogado ou alcoolizado que joga gasolina risca um fósforo ou acende um isqueiro e sai andando como num jogo de vídeo game.

Em 23 de julho de 1993, cerca de 50 crianças e adolescentes dormiam na escadaria da igreja da Candelária quando foram alvejados por policiais. (Reprodução)

Esse jovem, ex-entregador, ex-ajudante de pedreiro e carpinteiro, que já havia trabalhado vendendo salgado e Guaravita na rua; numa oficina que consertava para choques de carro com fibra de vidro e tentado virar camelô em Niterói, depois de vender bronzeador na praia de Copacabana; havia acabado de perder sua mãe vítima de um câncer de mama e quase simultaneamente sido mandado embora de seu emprego de entregador. Morava então com seu pai desempregado, cuja profissão era mecânica de refrigeração e eletricista e se gabava de ter trabalhado em grandes empresas como a Mesbla, o Macro, a Globo e até com o então juiz de menores Siro Darlan de Oliveira – não se sabe se com isso queria dizer que trabalhara para ele próprio ou se no mesmo prédio, condomínio etc., do então juiz, atualmente desembargador. O pai do jovem, um homem capixaba era um alcoólatra inveterado, um homem que nunca tivera casa própria, nem carro, nem moto. Apenas morava de aluguel e contraía dívidas que muitas vezes não podia pagar, por isso se mudava de um município para outro sob ameaças e morte de agiotas e então começava tudo de novo em sua nova residência.

Diante de tais circunstâncias foi que esse jovem de dezoito anos se iniciou no mundo do crime praticando sequestros relâmpagos que consistiam basicamente em render e manter a vítima em seu próprio carro, fazer um pedido de resgate de valor pequeno e libertar as vítimas após o pagamento da quantia pedida, isso tudo em poucas horas e sem nenhum tipo de agressão física às vítimas. Esse era o modus operandi da quadrilha que então passou a pertencer.

Suas incursões no mundo crime, porém, não duraram mais do que uns poucos meses, tempo que a Divisão Anti Sequestro levou para conduzir uma investigação que gerou a operação onde quase toda a quadrilha foi presa e conduzida para a sede da DAS no Leblon, em frente ao antigo Scala. Isso ocorrera no ano de 2003.

Leia também:

1- A roubada dos presídios federais – por Siro Darlan e Raphael Montenegro

2- Para que servem os presídios? – por Siro Darlan

3- Como transformar seres humanos em seres sem dignidade humana – por Siro Darlan

4- A guerra aos povos pobres e negros com nome de “guerra às drogas” – por Siro Darlan 

5- O dia que a casa caiu – por Siro Darlan 

6- Isso é uma vergonha, diz o Ministro Gilmar Mendes – por Siro Darlan 

7- “Bandido bom é bandido morto” – por Siro Darlan

8- A pena não pode passar da pessoa condenada – por Siro Darlan

9-  O Dia do Detento – por Siro Darlan

10- Para além das prisões – por Siro Darlan 

11- Justiça Restaurativa – por Siro Darlan 

12 – Alternativas à privação da liberdade – por Siro Darlan

13- Quem nasceu primeiro o cidadão infrator ou o Estado criminoso? – por Siro Darlan

14- A ponte para a liberdade – por Siro Darlan 

SIRO DARLAN – Editor e Diretor do Jornal Tribuna da imprensa Livre; Juiz de Segundo Grau do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ); Especialista em Direito Penal Contemporâneo e Sistema Penitenciário pela ENFAM – Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados; Mestre em Saúde Pública, Justiça e Direitos Humanos na ENSP; Pós-graduado em Direito da Comunicação Social na Universidade de Coimbra (FDUC), Portugal; Coordenador Rio da Associação Juízes para a Democracia; Conselheiro Efetivo da Associação Brasileira de Imprensa; Conselheiro Benemérito do Clube de Regatas do Flamengo; Membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão da OAB-RJ; Membro da Comissão de Criminologia do IAB. Em função das boas práticas profissionais recebeu em 2019 o Prêmio em Defesa da Liberdade de Imprensa, Movimento Sindical e Terceiro Setor, parceria do Jornal Tribuna da Imprensa Livre com a OAB-RJ.

Envie seu texto para mazola@tribunadaimprensalivre.com ou siro.darlan@tribunadaimprensalivre.com


PATROCÍNIO

Tribuna recomenda!