Por Carlos Mariano

A visão do Brasil como um paraíso terrestre sempre permeou o imaginário dos europeus, que invadiram e ocuparam o nosso país a partir de 1500. Nas Ciências Sociais, o mito do Brasil como Éden gerou uma das obras mais importantes da intelectualidade brasileira: “Visão do Paraíso”, do pesquisador Sérgio Buarque de Holanda. No livro, Buarque tem como ideia central mostrar até onde o imaginário do Brasil como lugar extraordinário – segundo os europeus colonizadores, ajuda a explicar o nosso passado.

É normal, portanto, e previsível que o tema do Brasil como paraíso povoasse também a mentalidade do mundo do samba e a fantasia do nosso carnaval. A tradicionalíssima escola de samba Paraíso do Tuiuti tem o paraíso como seu nome de batismo.

A construção do imaginário do paraíso tuiutiano nasce a partir da paisagem paradisíaca que os moradores terão do morro do Coruja, apelido popular da comunidade do bairro imperial de São Cristóvão, antes de adotar o Tuiuti da escola de samba como nome oficial. O nome paraíso já era usado pela escola de samba Paraíso das Baiana – uma das agremiações que existiam no morro, assim como a Unidos do Tuiuti, antes da criação da Paraíso do Tuiuti, em 1954.

Se os morros falassem, o Morro do Tuiuti teria muito o que dizer. Por mais de 200 anos foi testemunha de muitas das principais transformações físicas e sociais no Rio de Janeiro. (RioOnWatch/Reprodução)

Todos vão lembrar da Paraíso do Tuiuti no desfile do carnaval de 2018, quando a escola surpreendeu a todos na pista conquistando, heroicamente, o título de vice-campeã do carnaval carioca. Escola que, até aquela exibição, era vista como uma escola pequena do grupo de acesso, portanto, o segundo lugar teve gosto de vitória. A Paraíso, naquele ano, ficou atrás apenas da toda poderosa Beija Flor de Nilópolis, a recordista de títulos na era 2000.

Até chegar a esse feito histórico e heroico, a comunidade do morro do Tuiuti (antigo morro da Coruja) enfrentou um longo purgatório como uma escola pequena de maioria negra e marginalizada pela sociedade e pelo poder público.

Vampirão sem faixa presidencial e protestos contra a Globo marcaram desfile das campeãs em 2018

A primeira escola de samba da favela foi a Unidos do Tuiuti, fundada em 1934. Suas cores foram primeiro azul e rosa e depois azul e branco. Essa escola rivalizou na época com sua vizinha geográfica, a grande Estação Primeira de Mangueira que, depois, tornou-se madrinha da Paraíso do Tuiuti.

A Unidos do Tuiuti foi muito importante no período de fixação da escola de samba como agremiação da festa carnavalesca. Isto porque era uma escola muito atuante na sua comunidade e, com isso, conseguia com muita luta, suor e criatividade popular colocações altas, como em 1937 que ficou com um honroso quinto lugar ano, tendo a Vizinha Faladeira (primeira escola formada por trabalhadores da estiva) conquistado seu primeiro e único título até hoje. A Paraíso, em 1939, conquistou um extraordinário terceiro lugar, ficando atrás apenas das poderosas Portela (campeã) e Mangueira (vice).

Em 2018 o Festival Internacional de Circo levou alegria as crianças do Tuiuti. (Prefeitura do Rio/Divulgação)

Nos anos 1940, a Unidos do Tuiuti enrolou a sua bandeira. Dentre os motivos para tal acontecimento, foi a perseguição que a escola sofria da polícia local, que não respeitava o samba e nem os negros. Um outro fato também importante para a situação foi o surgimento de outras escolas de samba e blocos dentro da comunidade do Tuiuti. Entre 1930 e 1940, a escola de samba Paraíso das Baianas, que tinha as cores amarela e branca no seu pavilhão, e o bloco do Brotinho da Rua Amélia geravam uma certa rivalidade dentro da comunidade. Isso causava brigas e celeumas que atraia ainda mais a força policial para a comunidade.

Foi pensando numa pacificação e união da comunidade é que em, 5 de abril de 1954, as agremiações carnavalescas do morro se uniram e formaram a Paraíso do Tuiuti, que trazia no seu nome e cores do seu pavilhão, o amarelo do Paraíso das Baianas e o Tuiuti e a cor azul dos Unidos.

O ano de 1954 vai ser um ano de felicidade e ao mesmo tempo de tristeza para a população do morro do Tuiuti. Se por um lado, em abril, com o surgimento e afirmação de uma única escola na comunidade, as coisas tendiam a melhorar no plano cultural e comunitário, em agosto todo o Brasil e a comunidade do Tuiuti choravam a morte do presidente Getúlio Vargas. Getúlio tinha uma relação muito próxima e afetuosa com a favela do Coruja, a ponto ter um busto pedido pelos moradores da favela em homenagem ao então presidente. O busto ficava ao lado da caixa d’água na rua Tuiuti, no alto do morro. Toda essa paixão que a comunidade tinha com o velho Getúlio vinha da gratidão ao caudilho pelo fato dele ter feito, no fim da década de 1930, várias benfeitorias no morro: pôs iluminação elétrica nas ruas e vielas e instalou água encanada no alto do morro. Durante a gestão do governo de Carlos Lacerda, opositor histórico de Vargas, tentou-se derrubar o busto, mas a comunidade do Tuiuti protestou e impediu a ação.

Nesta foto de Anthony Leeds – antropólogo norte-americano de destaque por ter introduzido a antropologia urbana no Brasil durante a segunda metade do século 20 -, se vê o busto do presidente Getúlio Vargas numa janela do morro do Tuiuti na década de 1960. (Reprodução)

A caminhada da Paraíso do Tuiuti foi dura como a vida social dos seus moradores esquecidos depois da chamada era Vargas. Passou-se a conviver ainda mais com o descaso do poder público e a repressão policial. A escola de samba era a única instituição dentro da favela que a comunidade podia contar. Desfilar na Tuiuti representava o orgulho de defender seu samba e sua comunidade lá em baixo, no asfalto. Apresentar seus bambas, compositores e artistas e não serem reconhecidos no asfalto só pelos índices de violência.

Em 1968, a Tuiuti conquista seu primeiro título de campeã do grupo 3 de acesso, com o enredo “São Cristóvão, o Bairro Imperial”. Apesar do pouco dinheiro, a escola surpreendeu com fantasias e alegorias de bom gosto e criatividade. Esse virtuoso trabalho não era assinado por nenhum artista da Escola de Belas Artes, os chamados carnavalescos que, neste período já invadiam as escolas de samba e morros cariocas. Eles eram profissionais engajados da classe média que vão aos poucos transformando os desfiles das escolas de samba em espetáculos visuais e plásticos de perfil de classe média. Esse fenômeno começa na década de 1960 com a chamada revolução salgueirense liderada pelo artista e intelectual vindo das Belas Artes, Fernando Pamplona.

Os carnavalescos Fernando Pamplona e Júlio Mattos

Quem foi o responsável por esse grande desfile do Tuiuti, de 1968, foi Júlio Mattos – artista comunitário que era o responsável pela elaboração e organização do desfile da escola. Nascido no morro do Tuiuti e que começou sua carreira de artesão do carnaval na extinta Paraíso das Baianas e que se tornou o maior artista de carnaval antes da invasão dos carnavalescos profissionais, Julinho iniciou na Tuiuti e depois também se consagrou como artista popular da Estação Primeira de Mangueira – vizinha e madrinha do Paraíso. Foi de responsabilidade de Julinho as fantasias e alegorias do desfilaço da Mangueira, de 1967, em homenagem ao escritor Monteiro Lobato. Aliás, apresenta um dos sambas mais bonitos da Verde e Rosa, de autoria do quinteto formado por Hélio Turco, Darci, Jurandir, Batista e Luiz.

Na década de 1980, Maria Augusta, grande carnavalesca oriunda das Belas Artes e filha da revolução salgueirense, chega à Tuiuti trazida pelos amigos Nelson do Forró e Francisco Salim, diretores da Tuiuti na época. Augusta apesar de ser uma artista de formação clássica, na sua carreira solo de carnavalesca, notabilizou-se por desenvolver trabalhos em escolas com poucos recursos e com comunidade forte. Em 1977, Augusta fez um dos desfiles mais emblemáticos da história do carnaval carioca: “Domingo”, desenvolvido na emergente União da Ilha do Governador. Mesmo com pouco recurso, mas com muita criatividade e bom gosto, Maria e a escola insulana conseguiram um majestoso terceiro lugar entre as grandes escolas do Rio de Janeiro. Por sinal, melhor colocação da história da União da Ilha.

Maria Augusta posa com a ala que a homenageou no desfile da São Clemente de 2018. (Leonardo Bruno/Reprodução)

Na Paraíso, Augusta repete a fórmula e em 1980, seu primeiro ano como artista da escola, consegue um título de campeã do grupo de acesso 2B (a terceira divisão dos desfiles carioca) com o enredo “É a Sorte”. Maria Augusta relatou em entrevista ao Jornal do Brasil na época, que essa conquista e passagem pela comunidade do Tuiuti foi uma das mais emocionantes da sua carreira. Isso porque as pessoas participavam como atores da confecção do carnaval da escola.

O trabalho de Augusta não era realizado de cima para baixo, como acontecia na maioria das escolas grandes. O enredo e o desfile da escola eram pensados, construídos e realizado por todos. Existia uma simbiose entre a conceituada carnavalesca e a humilde comunidade da Tuiuti e seus artistas e sambistas.

Presidente vampiro, manifestantes fantoches, a CLT e a carteira de trabalho detonadas foram o não-dito da cobertura televisiva que só narrava a escravidão e seus horrores, afinal essa “acabou” historicamente, apesar do desfile de 2018 justamente mostrar que não em nosso capitalismo racista e neoescravocrata. (Reprodução)

Solitária, no alto do morro, mas, solidária com sua comunidade, a Paraíso do Tuiuti passou boa parte da sua história de resistência lutando nos grupos de acesso intermediários. Essa situação só começa a se alterar, com chegada do novo milênio. Em 2000, o Paraíso do Tuiuti com o enredo “Um Monarca na Fuzarca”, chega ao grupo especial com a conquista do vice campeonato da série A. No ano seguinte, no grupo especial, desfila com o enredo “Um Mouro no Quilombo”. Apesar da originalidade e criatividade do tema defendido pela escola, o jurado penaliza a escola com várias notas baixas e ela é rebaixada para o grupo de acesso A.

Depois de mais alguns anos no grupo de acesso A, a Tuiuti volta para o grupo especial no carnaval de 2016. Com o enredo “A Farra do Boi”, desenvolvido pelo talentoso carnavalesco Jack Vasconcelos, conquista pela primeira vez, o título de campeã do grupo de acesso A e volta a desfilar entre as grandes escolas do Rio.

Em 2016 o Paraíso do Tuiuti, com o carnavalesco Jack Vasconcelos, levou para Avenida o enredo “A Farra do Boi”. (Reprodução)

No carnaval de 2017, a Tuiuti apresenta como enredo “Carnavaleiscópio Tropifágico” – uma ode ao tropicalismo brasileiro. Tentando se firmar no meio das grandes escolas, a Tuiuti traz à Marquês de Sapucaí um carnaval com muita cor mas, com alegorias muito grandes e pesadas. O resultado foi um trágico acidente com a última alegoria da escola – um defeito num dos eixos na hora de manobrar fez a alegoria prensar pessoas contra as grades do setor 1, levando duas a óbito. Aliás, o desfile de 2017 foi marcado por acidentes. Além do que aconteceu com a Paraíso, a Unidos da Tijuca teve uma alegoria desmoronando em pleno desfile ferindo mais de vinte pessoas que estavam no alto da alegoria. Esses acidentes acarretaram justamente em notas ruins dadas pelos jurados na quarta-feira de cinzas. O resultado foi que a Unidos da Tijuca foi a penúltima colocada e a Paraíso do Tuiuti última, e pelo regulamento seriam rebaixadas para a série A.

Mas, uma virada de mesa vexatória liderada pelas próprias escolas de samba do Grupo Especial e a Liga Independente das Escolas de Samba, suspenderam o rebaixamento naquele ano.

Com o samba-enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”, a Paraíso do Tuiuti fez um dos desfiles mais marcantes do Carnaval de 2018 no Rio de Janeiro. (Paula Magalhães/Reprodução)

Livre do rebaixamento, a Paraíso do Tuiuti no carnaval de 2018 traria como enredo “Meu Deus, Está Extinta a Escravidão”, com carnaval assinado por Jack Vasconcelos, artista que estava na escola desde 2015 e contava com bons e criativos enredos. Esse desfile da Paraíso do Tuiuti foi surpreendente e emocionante. Ninguém imaginaria que depois do desastre ocorrido no carnaval de 2017, a escola pudesse fazer um desfile tão bonito e, ao mesmo tempo, com a cara da sua comunidade. Um dos momentos mais impactantes do desfilaço foi, sem dúvida, sua comissão de frente. Ela representava dois momentos da diáspora africana. O sofrimento da brutalidade física da escravidão durante a saída de África e a chegada nos portos brasileiros. Trazia a ancestralidade dos Pretos Velhos, os Griôs da sabedoria e guardiães da memória de África na negritude brasileira.

Em 2020, o carnavalesco João Vitor Araújo estreou na Paraíso do Tuiuti com um conjunto de alegorias que fez a comunidade de São Cristóvão confiar no retorno da escola entre as campeãs. (Divulgação)

O desfile da Tuiuti de 2018, de uma certa maneira, sintetizava toda a história dessa escola de samba e de sua comunidade. Se tem uma escola de samba em que sua memória se confunde com de sua comunidade, essa escola é a Paraíso do Tuiuti. O nome Tuiuti que batiza o morro, foi dado depois da união de todas as escolas e blocos do morro em 1954, para a criação da Paraíso Tuiuti. Antes disso, o morro se chamava Coruja e Tuiuti era apenas nome de uma das ruas da comunidade.

O Paraíso do Tuiuti chegou no carnaval de 2019 com a missão de superar o vice de 2018. (RioTur/Divulgação)

O ponto alto de emoção do desfile da Tuiuti foi quando a harmonia da escola começou a contagiar o público bradando com toda a fúria e garra o lindo e impactante refrão principal do samba de autoria de Cláudio Russo, Moacyr Luz, Jurandir, Zezé e Aníbal.

“Não sou escravo de nenhum senhor

Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti, o quilombo da favela

É sentinela da libertação”

O estribilho soou como um sonoro protesto contra aqueles que ainda querem cercear a liberdade das pessoas, em especial a de homens e mulheres negras desse país. Mais do que isso, é também uma narrativa autoral e autêntica de uma escola de samba que sempre se assumiu como uma agremiação pobre de favela, ligada as lutas da ancestralidade quilombola. O Paraíso e morro do Tuiuti, juntos como bastião de luta contra os racistas, foi sem dúvida, o combustível que nutriu e conduziu a Tuiuti a fazer o maior desfile da sua história e conquistar também sua maior glória: ser vice-campeã do carnaval carioca no ano de 2018.

Afirmava-se ali, na Sapucaí, a narrativa de uma negritude, na alma encantadora da dor da travessia, mas também, a fúria da justiça, liberdade e conquista da autonomia do povo negro e da escola de samba.

Bibliografia

  • “O Samba Teimoso de um Morro que Ninguém Vê”
  • Reportagem do Jornal do Brasil de 01/03/1981, sobre a história da escola de samba Paraíso do Tuiuti.

CARLOS MARIANO – Professor de História da Rede Pública Estadual, formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador de Carnaval, comentarista do Blog Na Cadência da Bateria e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.


Tribuna recomenda!