Por Luiz Carlos Prestes Filho

A seresta que toda a semana tem o seu início no ambiente fechado da Casa da Cultura, não teve mais como se transformar em serenata e atravessar as ruas de Conservatória com a sua caminhada sonora. O projeto acústico “Só Seresta”, criado por Suely Cancela, com a participação dos cantores Mauro Santos, Pedro Quinane, Wilar Franco, poetas e poetisas apaixonadas, também silenciou.

O mesmo aconteceu em Belo Horizonte, o bairro da Pampulha sentiu o impacto do cancelamento da tradicional “Seresta JK”, organizada por Marcelo Ferreira. Cantor que nos seus 19 anos entoo clássicos da música romântica junto com o presidente Juscelino Kubitschek.

Para Suely Cancela o fechamento dos hotéis fazenda e pousadas, de restaurantes e lojas de artesanato na Capital Brasileira das Serenatas, abriu a oportunidade para a realização de serenatas virtuais: “O isolamento social impede a reunião dos seresteiros e a visita dos apaixonados pela música. Eu vi este momento como uma pausa. Por isso, decidi colaborar para que a música continuasse ligada a nossas ruas. Com apoio da tecnologia do som e da imagem, levamos a serenata para os caminhos pelos quais ela sempre passou fisicamente nos últimos 100 anos. Quem conhece o espaço urbano de Conservatória viaja conosco, quem não conhece, descobre o lugar. Claro que levo em conta a época do ano, me vestindo adequadamente para não passar frio e me protejo do sereno virtual.” Brinca Suely animada.

Para Marcelo Ferreira de Belo Horizonte: “A seresta virtual, foi uma imposição do momento de isolamento e uma resposta aos queridos confrades de JK. Respeitando o protocolo emanado do município, comecei a fazer a seresta com caixas de som viradas para os meus vizinhos, depois comecei a transmitir pelo Facebook. A tradição da seresta com a minha participação vem de décadas, os encontros semanais, 8 anos. Não dava para parar, mas eu tinha que parar! A maioria dos confrades são pessoas acima de 50 anos, geralmente aposentados, músicos e cantores.”

Sobre as serenatas presenciais Suely concorda que são momentos únicos e insubstituíveis. Até porque, o desenho das ruas, das praças e do túnel de Conservatória reproduz o formato de um mágico violão:

A ruas que descem, as ruas que sobem

São as “cordas” deste violão

As pedras que pisamos – as “trastes”

O Túnel que Chora a “boca” – de lá sai o som

A praça da Matriz é a “ponte”

Aqui sentimos o movimento de cada tarraxa

E repetimos o refrão: as ruas que descem, que sobem

São as cordas desse violão chamado Conservatória

A líder das serenatas virtuais de Conservatória concorda que o reencontro de todos será uma grande celebração da vida e da resistência. Momento que espera com ansiedade.

Foi o presidente Juscelino Kubitschek que orientou Marcelo a morar na Pampulha: “Sim, ele me disse que a cidade de Belo Horizonte iria se expandir para esse lado. Ele era um visionário. Hoje contamos com uma boa infraestrutura, é um bairro valorizado da Capital mineira. A nossa lagoa, que tem no seu entorno obras do arquiteto Oscar Niemeyer, é pura poesia visual, é uma Conservatória da modernidade. Com certeza JK adoraria saber que aquele jovem que ele ensinou a cantar estaria um dia transmitindo serestas desse lugar. Somos visualizados diariamente por mais de 500 pessoas, chegando a atingir mais de 1.100 numa apresentação. Já fizemos mais de 90 transmissões a partir da Pampulha”.

O seresteiro diz que tem como norma de vida não traçar e nem prever o amanhã: “Para mim só o agora é importante. Faço todos os dias o que me dá prazer. Estar com amigos e cantar. Neste momento de distanciamento, quero estar abraçando, beijando, dando as mãos a todos eles com a minha música. A seresta presencial é eterna e agora teremos que perpetuar a virtual. Farei isso aperfeiçoando cada vez mais a transmissão, mas nunca deixando de lado a presencial. Necessito de estar com amigos. O meu sonho é levar a seresta para o mundo inteiro. Cantar o amor, cantar a saudade de JK”:

A seresta chegou, pousou de “manssin”

É cachaça, torresmo, pastel, violão, “cavaquin”

Sobre a Pampulha saudades de JK

A seresta não para, nunca pode parar

O Marcelo abre as portas do seu botequim

É babaganuche, tabule, falafel, “quibezin”

Canta quem pode, quem não pode canta também

Sobre a Pampulha a seresta, vai e vem…

A seresteira virtual de Conservatória, Suely Cancela, não acredita que a Serenata Virtual chegou para ficar, pois a tradição local é aquela realizada presencialmente, passeando fisicamente pelas ruas da Cidade: “Nisto reside o nosso romantismo. Humildemente, colaboro hoje para que os seresteiros e os turistas não esqueçam de como é bom passear por Conservatória. Não cheguei a pensar na continuidade. As lives que estão sendo feitas, por vários músicos e seresteiros, estas sim, talvez tenham vindo pra ficar. Mas levar as serenatas de Conservatória para outras Cidades e para outros países é uma boa ideia. Pelas mensagens que recebi de Portugal senti que podemos alargar as fronteiras.”

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LUIZ CARLOS PRESTES FILHO – Cineasta, formado na antiga União Soviética. Especialista em Economia da Cultura e Desenvolvimento Econômico Local, colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre. Coordenou estudos sobre a contribuição da Cultura para o PIB do Estado do Rio de Janeiro (2002) e sobre as cadeias produtivas da Economia da Música (2005) e do Carnaval (2009). É autor do livro “O Maior Espetáculo da Terra – 30 anos do Sambódromo” (2015).