Por Miranda Sá

“É só um sonho que se sonha só, / Mas sonho que se sonha junto é realidade…”  (Raul Seixas)

Com o avanço da ciência e da tecnologia, os seres humanos pensantes se convencem de que a nossa estrutura anatômica é uma sofisticada versão do computador, agindo com os impulsos elétricos nervosos através de condutores ligados ao sistema nervoso central.

Temos no cérebro o encéfalo, parte do Sistema Nervoso Central, que recebe, processa e gera respostas às mensagens que chegam até ele. Uma espécie de radar aperfeiçoado biologicamente para o nosso organismo.

Lembremos que o radar, de uso excessivo nas últimas guerras, é um aparelho que emite ondas eletrônicas detectando corpos sólidos à sua frente. Seu nome é um neologismo adotado em todos idiomas do mundo, vindo da rubrica inglesa formada pelo “RA”, rádio, “D”, detetection, e “A”, de and e “R” de ranging…

Após a Segunda Guerra Mundial, o poeta e dramaturgo Félix-Henri Bataille, maravilhado pelo radar, escreveu sobre as percepções sensoriais humanas, lamentando que nós usamos mal essas maravilhas, porque não sabemos como processá-las.

Realmente. Há estudos científicos que nos falam de vinte ou mais sentidos, além da audição, do olfato, do paladar, do tato e da visão; operando-os, eles nos permitiriam uma imensa e múltipla percepção de sensações externas.

Pesquisadores científicos dos sentidos dão exemplos de sensações que vão além dos cinco conhecidos, como intuição, premonição, pressentimento e transmissão do pensamento. Alguns vão mais além, falam dos sonhos que projetam invenções e/ou indicam saídas para situações difíceis.

Para Freud, no seu livro “Teoria dos Sonhos”, o sonho é um fenômeno psíquico onde realizamos desejos inconscientes; mais adiante, na sua “Interpretação dos Sonhos”, o Pai da Psicanálise afirma que quando o estado de sono reprime revelações anormais ou perversas, é o motivo gerador de traumas e mudanças de comportamento.

Falando por experiência própria, eu sempre me preocupei com o sonho, a sua forma de traduzir fatos do cotidiano, resposta às sensações fisiológicas e o que fica da sua lembrança ao acordar.

Esclareço que uso alguns métodos para exercitar o adormecer e para estimular o sono,e estimulando para os sonhos experiências pessoais. Aprendi muito no correr dos anos, mas tudo teve início na infância, graças à minha formação através das discussões domésticas sobre isto.

Com meu pai positivista e a minha mãe espírita kardecista, nós discutíamos muito a respeito das manifestações do sonho, o pai refletindo sobre vidas interplanetárias – hoje diríamos alienígenas –; e a mãe, sobrepesando e defendendo a imortalidade da alma – seja, a vida após a morte –.

Meus estudos esclareceram que foram os sonhos dos homens primitivos que os levaram à crença de uma outra vivência, paralela, precedendo milhares de anos as religiões orientais espiritualistas, o kardecismo, os cultos afro-ioruba e a sua descendência brasileira, a Umbanda.

O verbete Sonho, dicionarizado é um substantivo masculino, ato ou efeito de sonhar; e também a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo sonhar. A origem é latina, “somnium”, criação do sono.

A palavra deu um grandioso mergulho na política, graças ao discurso histórico de Martin Luther King, líder norte-americano do movimento pelos direitos civis, tornado antológico em todo mundo como “I have a dream” – “Eu tenho um sonho”.

A fala do grande líder norte-americano em Washington contra a segregação racial (que soube a pouco, contou com a presença de Frank Sinatra) teve um desfecho apoteótico, descrevendo o sonho como um sonho de liberdade, igualdade e respeito humano, um sonho para o futuro.

Vivendo o inferno astral trazido pelo novo coronavírus juntei o sonho de Martin Luther King ao sonho que Shakespeare pôs na boca de Hamlet: “Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema. ”

Assim, fui levado a falar do meu sonho no isolamento social, por amor à vida, pelo civismo e em solidariedade ao próximo. Sonho com o fim da pandemia, e não quero sonhar só; vamos sonhar juntos para torna-lo realidade…


MIRANDA SÁ – Jornalista, blogueiro e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre. Trabalhou em alguns dos principais veículos de comunicação do país como a Editora Abril, as Organizações Globo e o Jornal Correio da Manhã. Recebeu dezenas de prêmios em função da sua atividade na imprensa, como o Esso e o Profissionais do Ano, da Rede Globo.