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O colapso financeiro mundial e nacional no DNA da bitcoin e das moedas: a saída pelo Pacto Social
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O colapso financeiro mundial e nacional no DNA da bitcoin e das moedas: a saída pelo Pacto Social 

Por José Carlos de Assis

Meu querido amigo Luiz Gonzaga Belluzzo, o mais destacado e erudito economista político do país, concorda comigo em quase tudo, exceto quanto ao fato, que sustento, de que a economia mundial caminha para uma crise gigantesca. Por ser meu amigo, ele quer me proteger do desgaste público por anunciar fatos catastróficos que não se realizarão. Sou suficientemente modesto para não acreditar que tenho o dom da profecia. Isso pertence a Deus, mas infelizmente não sou Deus. Se fosse, a primeira coisa que faria seria isolar o Brasil da crise mundial que vem por aí.

Belluzzo se apoia em decisões objetivas das autoridades monetárias para controlar alguma crise econômica. Por exemplo, acha que o FED, o banco central, que está injetando rios de dinheiro na economia dos Estados Unidos e do mundo ocidental para controlar o desemprego, que ainda perdura contra as políticas emergenciais de Joe Biden, segura a barra do crescimento. Até aí estamos quase de acordo. Onde divergimos é quanto ao papel do sistema financeiro no processo. O sistema financeiro é um bicho complexo. Move-se por percepções, não por fatos e decisões.

As bolsas quebram não porque tenham algum desequilíbrio de fundo na oferta e demanda de ações, mas porque alguém, ou alguns, acham que ela vai quebrar. Para transformar suas aplicações em dinheiro vivo, essas pessoas vendem tudo que têm em ações e vão em busca de algum ativo real. Outros, percebendo que isso está acontecendo, vendem também suas ações e deixam de comprar. É o famoso efeito manada. De repente todo mundo vende e ninguém compra. E aí a bolsa quebra, inapelavelmente. Instala-se o caos financeiro, que afeta também a economia real.

Não há remédio contra isso. É um movimento estritamente subjetivo. Não entendo como Belluzzo, que não é propriamente um economista, mas um filósofo da economia, não tira daí a conclusão necessária de que sistemas financeiros quebram pela margem, e não pelo corpo principal do mundo real que apenas representam. Assim, algo tão insignificante em relação ao mercado financeiro globalizado como o universo paralelo das bitcoins, a moeda privada não garantida pelo Estado, pode desencadear um desastre de proporções catastróficas.

A bitcoin é o equivalente contemporâneo, de perfil tecnológico, de uma pirâmide financeira antiga: ganha nela quem entra primeiro e sai primeiro. O sujeito que entra paga pelo que sai. Na febre especulativa, sempre entra mais gente do que sai. Nos primeiros tempos desse mercado paralelo, é preciso que mais gente nova entre no processo para pagar as aplicações dos antigos, a preços cada vez mais altos. A percepção é de uma alta fantástica, sem limites. Aí então um ganhador desconfiado não volta ao mercado para comprar. Ninguém compra. Vem o estouro.

Até que ponto um mercado restrito como o da bitcoin pode afetar o gigantesco mercado financeiro globalizado? Basta um percepto do lado errado, e o sistema de comunicação instantâneo do mundo atual faz o resto através da internet. Ordens de venda e compra se fazem de forma imediata num terminal de computador ou de um celular. Rapidamente os mais especializados na manipulação do sistema percebem uma manifestação estranha. É inevitável o efeito manada. Como ocorre nas bolsas, a bitcoin segue um curso na direção das cinzas, inevitavelmente.

Como é uma moeda sem Estado por trás, a bitcoin não pode ser salva por bancos centrais. Se querem o livre mercado, como há décadas pregam o Consenso de Washington e o grupo do Forum Econômico Mundial, que o tenham. Mas o FED, me adverte Belluzzo, está enterrando dinheiro nos mercados – é o banco central ocidental do dólar, 70% de dinheiro do mundo -, e toda essa liquidez pode salvar sistemas institucionalizados e sistemas paralelos. Será? E os chineses gostarão disso, eles que têm trilhões de dólares enterrados em títulos norte-americanos?

Se o FED continuar inundando o mundo de dólares seu valor cairá, e os chineses, que já deram sinal disso, caem fora com seus títulos. Voltam para casa. Os europeus também não gostariam disso, porque o BCE, seu banco central controlado pelos alemães, tem horror à inflação. Também eles fugirão dos EUA. Poderá se ver, ao reverso, o que aconteceu em 1979: junto com o segundo choque do petróleo, que impôs uma recessão ao mundo, veio o choque de juros. O FED, sob a mão de ferro de Paul Volcker, quadruplicou a taxa básica de juros. Incrível, mas deu certo.

Por que deu certo? Em 1979, último ano de governo do presidente Carter, a Casa Branca estava inteiramente desmoralizada. O sequestro da Embaixada norte-americana em Teerã pelos jovens da Guarda Revolucionária se estendia por mais de 400 dias. Os mercados mundiais comandados pelos Estados Unidos estavam mergulhados em recessão e inflação. A instabilidade monetária e cambial era universal. Então, venceu o mandato do presidente do FED e colocaram em seu lugar o único funcionário público de alta credibilidade no país, Paul Volcker.

Volcker era um durão em matéria de política de combate à inflação. O livro texto liberal dizia que isso deveria ser feito mediante políticas de arrocho fiscal e aumento da taxa de juros. O ajuste fiscal não estava sob seu controle. Mas os juros estavam. Então, ele elevou a taxa básica com um choque sem precedentes. Saiu de um dígito e foi parar em 21%. Jamais acontecera isso. A taxa de aplicação dos bancos chegou a quase 30%. O Brasil, que tomara sua dívida externa a taxas flutuantes de cerca de 7%, passou a pagar extravagantes valores quatro vezes superiores.

O livro texto dizia que, num ambiente inflacionário provocado pela fraqueza do dólar perante outras moedas europeias, o aumento dos juros sugaria a liquidez internacional para os EUA. Foi exatamente o que aconteceu. À custa do aumento da recessão na Europa, provocado pela escassez de dólares, e da brutal expansão da dívida externa dos países pobres e em desenvolvimento, notadamente o Brasil, Volcker estabilizou a economia norte-americana sem fazer arrocho fiscal. Ao contrário. O carismático presidente Ronald Reagan assumiu o poder e acelerou o gasto público.

O que isso tem a ver com a situação econômica brasileira atual? Tem tudo, mas há um fator político inescapável. A inflação e sobretudo o custo de vida estão ficando fora do controle, e o Banco Central de Roberto Campos e Paulo Guedes, como manda o livro texto neoliberal, está aumentando a taxa de juros para combatê-los. Acontece que, no Brasil, não há um Reagan chegando a cavalo à Casa Branca. É Lula que se aproxima do Planalto. Para os especuladores, Guedes é uma garantia de política monetária favorável, enquanto Lula representa uma ameaça futura.

O que caracteriza a especulação é a aposta no futuro. Eis que temos uma situação econômica e política caótica, e uma perspectiva externa desfavorável. A inclinação do especulador, sobretudo quando confrontado com a total falta de credibilidade do governo, é pular fora das aplicações especulativas. A maior delas são as chamadas moedas virtuais, inauguradas pela bitcoin. É a moeda inteiramente sem lastro de metal ou de papel, e sem garantia do Estado como emissor. Essa moeda realizou o ideal do Forum Econômico Mundial: a moeda privada da globalização.

A bitcoin está explodindo no Brasil.

Há poucos dias a Polícia Federal prendeu o maior especulador brasileiro em bitcoin, a quem se atribuiu um golpe de R$ 1 bilhão nos mercados interno e externo. Eis outro ponto de diferença entre mim, Belluzzo e outro economista amigo, o professor Daniel Conceição, presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Ambos sustentam que, diante do porte do mercado financeiro mundial, a bitcoin, sendo uma moeda segregada, não tem potencial de, perdendo circunstancialmente valor, deflagrar uma crise financeira.

Estão enganados. Crises financeiras são desencadeadas por fatores subjetivos, não objetivos. Não é o fato em si que as deflagram, mas como outros o percebem. O que importa não é o estoque dos valores a elas referidos, mas seu fluxo. Em uma palavra: bancos e outros agentes financeiros quebram pela margem, não pelo centro. Então, poderiam dizer Belluzzo e Daniel – e, de fato, disseram – porque a notícia da fraude de R$ 1 bilhão no mercado brasileiro de bitcoin não desencadeou o efeito manada no mundo? Suspeito da razão: porque Chico Pinheiro não deixou.

Chico é um dos mais competentes e responsáveis apresentadores de telejornais do Sistema Globo, mas não é um especialista em economia. Quando um repórter lhe apresentou, quando estava no ar, a notícia de que a PF descobrira uma fraude de R$ 20 bilhões no mercado brasileiro de bitcoin, ele não acreditou. Pediu que conferisse. O repórter insistiu, mas assim mesmo Chico Pinheiro não leu a notícia. A versão apresentada foi negociada por R$ 1 bilhão. Era mais aceitável pelo público conservador da Globo. R$ 20 billhões ficaram por R$ 1 bilhão.

A Psicologia diz que pessoas comuns não conseguem conceituar valores absolutos acima de mil. Mas conseguem avaliar valores relativos. R$ 1 bilhão como valor absoluto não faz muito sentido, mas R$ 20 bilhões, ou seja, algo 20 vezes maior que R$ 1 bilhão, despertam atenção. Alguém que esteja aplicado em bitcoin não dá muita importância a um golpe de R$ 1 bilhão, mas fica assustado quando se fala em 20 vezes mais. É o dinheiro dele que está em risco. Ele o põe instantaneamente onde quiser. Na dúvida, pula fora. Outros o seguem. Eis o efeito manada.

Chico riu muito quando lhe disse que ele evitou nesta semana a débâcle dos mercados de moedas virtuais. Como são moedas sem Estados por trás, só tem valor porque alguém está disposto a comprá-las. Quando todo mundo quer vendê-las, viram pó. E como são as moedas características da especulação desenfreada nos paraísos fiscais, podem levar esses últimos na derrocada. Isso, naturalmente, não passa ao largo dos bancos sérios. Alguém que perde dinheiro na bitcoin e deve a um banco sério, pode não pagar a dívida e determinar também sua queda pela margem.

Este é o limite extremo e final da especulação financeira condenada de forma corajosa pelo Papa Francisco num documento técnico espetacular do Vaticano. É um libelo contra a imoralidade básica dos sistemas financeiros atuais. É possível segurar essa onda? Na próxima onda, é possível que não haja um sujeito tão responsável como Chico Pinheiro para segurá-la. Então, finalmente, terá chegado a hora que todos os analistas técnicos dos mercados de moedas virtuais prognosticaram: isso são pirâmides tecnológicas contemporâneas que revivem fraudes financeiras do passado.

A questão é saber o que vem depois. A crise global é inevitável, de proporções gigantescas, maiores do que a de 2007/2008. Será que um país com absoluta falta de credibilidade como o Brasil de hoje, presidido por um psicopata que quer desmontar as instituições da democracia, pode superá-la? Ora, em 2009 conseguiu. Mas era governado por um sujeito sem arestas e sem ódio, com alta credibilidade internacional, apesar de não ter muita cultura. Com auxiliares competentes, adotou a política certa: injetou dinheiro na economia e recuperou o consumo e a produção.

Agora a situação é diametralmente oposta e o presidente louco está dominado por neoliberais que acham que a situação será normalizada pelo livre mercado, sem intervenção do Estado. Na matriz neoliberal, o único instrumento de política econômica à mão de outro desequilibrado, Paulo Guedes, é a política fiscal-monetária de austeridade. A fiscal, aplicada com extremos sacrifícios para o povo durante por mais de 20 anos, jogou a economia numa estagnação permanente e à inflação de agora. Resta o choque dos juros. E isso não dará apenas inflação, mas hiperinflação.

Tivemos hiperinflação no passado, esmagando o povo, mas tolerada pela classe dominante porque a economia era indexada. Hoje, a indexação, mesmo que imposta improvavelmente por um governo neoliberal, é insuficiente. O custo de vida vai para a lua. Ou iria. Já que, diante de crises tão profundas, um governo que viria substituir a tragédia neoliberal bolsonarista ainda pode salvar a Nação. A preliminar é a imediata deposição de Bolsonaro e de Guedes. Isso tem que ser feito rápido, pois o atual desgoverno ameaça explodir o custo de vida, o desemprego e as eleições.

Será que o Congresso terá agilidade para atuar nessa velocidade? Acredito na pedagogia da crise. Colegas meus acham que exponho muito minha credibilidade porque aponto a inevitabilidade da consumação das crises particulares numa crise global. Faço isso, porém, não porque quero ser profeta. Faço porque quero dar uma contribuição ao país e ao povo para evitar o pior. O que estou propondo é um grande Pacto Social entre classes e grupos que correm riscos comuns, em vários campos, em busca de um objetivo comum, a estabilidade e a retomada da prosperidade perdida.

Entre as lideranças sociais não há grande dificuldade de conciliação quanto ao diagnóstico básico das crises e a definição de interesses comuns. A questão é enquadrar esses objetivos num nível superior de decisão. Esse é o papel do Pacto e do Congresso Nacional. A partir dele, e da intervenção efetiva de classes dominantes tradicionais, que estão fragmentadas, e classes dominadas, que sofrem conjuntamente o pior das crises, pode-se colocar pressão sobre o Congresso Nacional para que tome o poder institucionalmente, enterre o neoliberalismo e mude radicalmente a economia.

Pode parecer difícil, mas não é. Isso é um jogo dialético. Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises. É a ambiental, a energética, a urbana, a de segurança pública, do terrorismo, que são comuns ao mundo. E a econômica, a social, a política, a do Estado, a do mercado de trabalho, que são principalmente nossas.

Não há como enfrentá-las isoladamente. É preciso que haja coerência na formulação e na ação. Isso está ao alcance do Pacto Social.

JOSÉ CARLOS DE ASSIS – Jornalista, economista, escritor, colunista e membro do Conselho Consultivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre; Professor de Economia Política e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 25 livros sobre Economia Política; Foi professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), é pioneiro no jornalismo investigativo brasileiro no período da ditadura militar de 1964; Autor do livro “A Chave do Tesouro, anatomia dos escândalos financeiros no Brasil: 1974/1983”, onde se revela diversos casos de corrupção. Caso Halles, Caso BUC (Banco União Comercial), Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla Maluf), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin (Ronald Levinsohn), Caso TAA. Cada caso é um capítulo do livro; Em 1983 o Prêmio Esso de Jornalismo contemplou as reportagens sobre o caso Delfin (BNH favorece a Delfin), do jornalista José Carlos de Assis, na categoria Reportagem, e sobre a Agropecuária Capemi (O Escândalo da Capemi), do jornalista Ayrton Baffa, na categoria Informação Econômica. Em função das boas práticas profissionais recebeu em 2019 o Prêmio em Defesa da Liberdade de Imprensa, Movimento Sindical e Terceiro Setor, parceria do jornal Tribuna da Imprensa Livre com a OAB-RJ.


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