Por Siro Darlan

Dia 22 de janeiro Leonel Brizola completaria 102 anos.

Uma nação só se reconhece através de seus grandes líderes políticos e Brizola está no panteão da História do Brasil. Nascido humilde em Carazinho, um distrito rural de São bento, no Noroeste do Rio Grande do Sul, onde viveu seus primeiros anos, mudando-se para a Capital Porto Alegre em 1936. Na Capital do Estado estudou e trabalhou como engraxate, graxeiro, ascensorista e servidor público. Em 1945 ingressou no curso de engenharia civil na Universidade federal do Rio Grande do Sul, graduando-se em 1949.

Desde muito cedo mostrou sua vocação pela transformação social através da política e foi em um evento político que conheceu sua grande companheira de vida e formação familiar a querida Dona Neusa Goulart, uma mulher admirável que soube estar de seu lado fortalecendo-o em todos os momentos. Dona Neusa era irmã do Presidente João Goulart, casou-se com Brizola e lhe deu três filhos, Neusinha, José Vicente e João Otávio.

Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola, 1984. (Acervo comunista/Twitter)

Conheceu muito precocemente as dificuldades da vida política quando teve seu pai José Oliveira dos santos Brizola, um pequeno fazendeiro, assassinado pelos soldados de Borges de Medeiros durante a Revolução de 1923. Mesmo órfão de pai sua mãe Dona Onívia criou os cinco filhos com muitas dificuldades, sendo por ela alfabetizado. Já aos dez anos ganhou autonomia econômica morando sozinho no sótão de um hotel, onde lavava pratos e carregava malas até a estação férrea para poder comer. Com a ajuda de um pastor metodista ganhou uma bolsa de estudos que lhe permitiu concluir o ensino fundamental. Aos doze anos, mudou-se para a Capital concluindo então um curso técnico que o permitiu avançar em sua formação acadêmica.

São essas as bases de um grande líder, forjado na pobreza e no trabalho muito precoce, alistou-se para o serviço militar no 3º Batalhão de Aviação do Exército, concluindo, voltou a trabalhar, agora como como jardineiro da Prefeitura. No Colégio já se manifestava o líder político que surgiu depois, tendo sido um dos fundadores do Grêmio Estudantil.

Lupi e Ciro celebraram os cem anos de Leonel Brizola. (Reprodução)

Ainda na Universidade começou sua militância política quando se filou ao partido Trabalhista Brasileiro em 1945 e foi responsável pela organização da ala jovem do partido, que ficou conhecida como Ala Moça. Em 1947 foi eleito deputado estadual com 3,893 votos. Na Assembleia legislativa defendeu pautas de vanguarda como as do movimento estudantil que pleiteava o aumento de vagas nas instituições de ensino. Na Assembleia Constituinte apoiou a emenda de Alberto Pasqualini que classificava o direito de propriedade como “inerente a natureza do homem dependendo seus limites e uso de conveniência social”.

Em 1954 foi eleito deputado federal com 103003 votos, mais do que o dobro do segundo colocado e recorde nacional. Já com o slogan “Nenhuma criança Sem Escola”, vence as eleições para a Prefeitura de Porto Alegre, sendo sua administração marcada pelo aumento de vagas disponíveis na rede municipal de ensino que passou a dois turnos. Foi empossado governador do Rio Grande do Sul em 1959 e prestava contas de sua administração ao povo do Rio Grande toda semana através do rádio, construindo escolas durante todo seu governo. Em 1961 lidera a Campanha da Legalidade em defesa da democracia e do cumprimento da Constituição que garantia a posse do Vice-Presidente João Goulart, com a renúncia do então presidente Jânio Quadros, que os militares tentavam impedir.

Brizola reconheceu antes de morrer que Jango estava certo
Jango e Brizola. (Divulgação)

A administração no Rio Grande do Sul marcou seu caráter eminentemente nacionalista impedindo a interferência estrangeira nas companhias de infraestrutura do governo como eletricidade e telefonia com um programa de construção de serviços públicos estatais e a nacionalização de empresas estrangeiras, chamando a atenção do império capitalista para suas ações de caráter de proteção do patrimônio nacional. A alfabetização e o aumento de vagas no ensino público foram suas marcas registradas nessa e em todas as suas administrações, chegou a marca de 6 302 estabelecimentos de ensino só nesse período de seu governo, o que fez do Rio Grande do Sul o estado com a maior taxa de escolarização do Brasil.

Sua agenda de reformas sociais e políticas incomodaram o comando elitista do Estado e ele se transforma em alvo a ser derrubado. Vence então as eleições para deputado federal pelo então Estado da Guanabara com expressiva votação. Brizola sempre defendeu os excluídos e em suas propostas incluiu o direito ao voto para analfabetos e suboficiais. Controle rigoroso sobre investimentos estrangeiros e as reformas de base.

Lula e Brizola. (Twitter/Lula)

Leonel Brizola, que foi deputado estadual na sua juventude, depois deputado federal, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul, exilado político e por duas vezes governador do Rio de Janeiro. Presidente fundador do PDT, Brizola nos deixou enorme saudade, sua morte comoveu o povo e representou grande perda para o Brasil tão carente de líderes autênticos que expressem reais sentimentos de nacionalidade. De todas as realizações de Leonel Brizola, sem dúvida a mais marcante foi a defesa da educação como causa de salvação nacional, deixou grandes exemplos nesta área implantando 6.300 (seis mil e trezentas) escolas no Rio Grande do Sul e 500 (quinhentos) CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública) no Rio de Janeiro. A educação integral passou a ser difundida e valorizada no país a partir deste seu último feito, que realizou com a ajuda do antropólogo e educador Darcy Ribeiro, também de saudosa memória.

Como defensor dos direitos da criança e do adolescente, fica meu pleito de gratidão ao grande líder Leonel Brizola que muito antes de aprovados os direitos fundamentais dessa parcela tão desprezada de nossa população, já praticava através da garantia do acesso à educação pública, gratuita e integral.

SIRO DARLAN – Advogado e Jornalista; Editor e Diretor do Jornal Tribuna da imprensa Livre; Ex-juiz de Segundo Grau do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ); Especialista em Direito Penal Contemporâneo e Sistema Penitenciário pela ENFAM – Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados; Mestre em Saúde Pública, Justiça e Direitos Humanos na ENSP; Pós-graduado em Direito da Comunicação Social na Universidade de Coimbra (FDUC), Portugal; Coordenador Rio da Associação Juízes para a Democracia; Conselheiro Efetivo da Associação Brasileira de Imprensa; Conselheiro Benemérito do Clube de Regatas do Flamengo; Membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão da OAB-RJ; Membro da Comissão de Criminologia do IAB. Em função das boas práticas profissionais recebeu em 2019 o Prêmio em Defesa da Liberdade de Imprensa, Movimento Sindical e Terceiro Setor, parceria do Jornal Tribuna da Imprensa Livre com a OAB-RJ.

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