Por Samara Portela – Sommelière –

Que tal pedir um vinho e deparar-se com séculos de história? No verão passado em uma cálida Barcelona que transpirava liberdade, fui ao Bar Salvatge, difusor de vinhos de baixa intervenção enológica elaborados por pequenos produtores. Após taças de Picapoll e Sumoll Blanca diretamente dos grifos, chegara o momento da tarefa mais árdua que o ócio pode oferecer: escolher um rótulo. Ora, ora, haverá ocasião mais propícia que o confinamento para que viajemos através de garrafas e lembranças? Permito-me, portanto, voltar ao tempo.

Desde 1405, os antepassados de Ignasi Segui cultivam ininterruptamente as variedades tradicionais do Penedès. A partir de 2011, o viticultor selecionou para o projeto “Vinyes Singulars” videiras de mais de 60 anos, entre elas a Sumoll Negra, para elaborar de modo ecológico um portfólio de vinhos sinceros, sem manipulações, que transmitisse a pureza de seu entorno. Alguns a conhecem como Pinot Noir do Mediterrâneo, lamentavelmente ofuscada por outras castas mais conhecidas pelo mercado internacional como Merlot e Cabernet Sauvignon e também para o plantio das brancas para produzir Cava.

Antes da filoxera, praga que dizimou a maioria das plantações no final do século XIX, era comum que o leque de castas autóctones estivesse misturado em um só vinhedo, formando o complexo mapa vitivinícola da Catalunha, tão cheio de curvas e mosaicos que parece ter sido criado por Gaudí. Graças ao labor que envolve gerações como os antepassados de Segui, que se mantiveram por séculos cultivando suas terras sem sucumbir aos desejos forâneos do mercado, hoje é possível provar rótulos como o que enfim escolhi, o monovarietal “Sumoi Barmei 2018”.

Já chamava atenção a sua brilhante e translúcida cor rubi, clamando para que fosse esparramada em nossas taças. Assim como aquela tarde, era leve e extrovertido, aberto no olfato, com suculenta framboesa, romã e toques de alecrim e tomilho. Percorreu um caminho vivaz pelo paladar, não sem depositar rastros de taninos de finos grãos, culminando em um final refrescante e terroso que não deixava dúvidas de sua nobre rusticidade. Líquido puro, direto da uva, sem insumos agregados, nem técnicas invasivas, apenas 1000 garrafas geradas na fazenda, um ecossistema familiar e sustentável que também elabora mel, vegetais, ovos e azeite.

Vinho natural, afinal, não é um estilo de técnicas, e sim, de vida. Felizmente há espaços como o Bar Salvatge para recordar ao público que entre goles e petiscos saborosos com alimentos sazonais é possível consumir produtos autênticos em um contexto relaxado e cheio de histórias que anseiam por ser contadas.

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Relato Salvatge

Por Samara Portela – Sommelière

¿Qué les parece pedir un vino y encontrarse con siglos de historia? El verano pasado en una cálida Barcelona que transpiraba libertad fui al Bar Salvatge, difusor de vinos de baja intervención enológica elaborados por pequeños productores. Después de algunas copas de Picapoll y Sumoll Blanca que venían directo de los grifos, había llegado el momento de realizar  a tarea más penosa que el ocio podría ofrecer: elegir una etiqueta. ¿Habrá ocasión más propicia que el confinamiento para que viajemos a través de botellas y recuerdos? Me permito por lo tanto volver en el tiempo.

Desde 1405, los antepasados de Ignasi Segui cultivan de modo continuo las cepas tradicionales del Penedès. Después del 2011, el viticultor decidió seleccionar sus mejores vides, de más de 60 años, entre ellas la Sumoll Negra, para elaborar de manera ecológica un portfolio de vinos sinceros, sin manipulaciones, que transmitieran la pureza de su entorno. Algunos la conocen como Pinot Noir del Mediterráneo, lamentablemente opacada por varietales más conocidos por el mercado internacional como Merlot y Cabernet Sauvignon y también por el plantio de blancas para producir Cava.

Previo a la filoxera, plaga que diezmó la mayoría de las plantaciones a fines del siglo XIX, era común que el abanico de cepas autóctonas estuviera mezclado en un solo viñedo, configurando el complejo mapa vitivinícola de la Catalunya, lleno de curvas y mosaicos que podría haber sido creado por Gaudí. Gracias a la labor que involucra generaciones como los ancestrales de Segui, que se mantuvieron por siglos cultivando sus tierras sin sucumbirse a los deseos foraneos del mercado, hoy es posible degustar etiquetas como la que al final elegí, el monovarietal “Sumoi Barmei 2018”.

Llamaba la atención su brillante y translúcido color rubí, clamando ser desparramado en nuestras copas. Como aquella tarde, era ligero y extrovertido, abierto al olfato, con jugosa frambuesa, granada, toques de romero y tomillo. Recorrió un camino vivaz en boca, dejando rastros de sus taninos de granos finos, culminando en un final fresco y terroso que no dejaba dudas de su noble rusticidad. Líquido puro, directo de la uva, sin insumos agregados, ni técnicas invasivas, solamente 1000 botellas producidas en la finca, un ecosistema familiar y sustentable que además elabora miel, vegetales, huevos y aceite.

Vino natural al final no es un estilo de técnicas, sino de vida. Felizmente hay espacios como el Bar Salvatge para recordarle al público que entre sorbos y tapas sabrosas con alimentos de estación es posible consumir productos auténticos en un contexto relajado y lleno de relatos que esperan ser contados.


SAMARA PORTELA from Rio de Janeiro residing in Buenos Aires. She has a certificate from Escuela Argentina de Sommeliers, CETT Barcelona. She also has a degree in Art History. Samara worked at the El Baqueano restaurant and she is currently a consultant and researcher on wine culture.