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Será que a Grajaú-Jacarepaguá está fechada?
Interdição da Grajaú-Jacarepaguá é uma triste rotina no trânsito da cidade (Reprodução/TV Globo)
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Será que a Grajaú-Jacarepaguá está fechada? 

Por Herédia Alves

A rotina dos moradores do Complexo do Lins tem sido marcada por operações e confrontos com a polícia, assim como as incontáveis manifestações desesperadas dos moradores que gritam para serem ouvidos na região.

Conjunto de favelas do Lins é formado por 13 comunidades (Google Maps)

Ainda muito abalada a moradora C. B, relata que as ações da polícia na Complexo são diárias e que muitas das vezes os policiais usam as casas como base para se abrigarem. Não temos um dia de paz, todo dia eles fecham a “Grajaú” e entram atirando, sem pensar em quem vão acertar.

“Todos os dias vivenciamos esse terrorismo, somos abatidos como patos, a carne treme de medo quando chegam mensagens nos grupo de WhatsApp informando que a polícia chegou, dessa vez foi a menina grávida, semana que vem pode ser meu filho e ninguém se importa de verdade” finaliza C.B que vive na comunidade a mais de 20 anos.

Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá é um território de medo, com riscos de arrastões e tiroteios (Reprodução/RJTV)

Apesar da segregação socioespacial, o medo une a favela e o asfalto através da autoestrada Grajaú-Jacarepaguá, uma via marcada pelo medo e cenas de terror, já que diuturnamente fica fechada devido a confrontos policiais que marcam a região. Aterrorizando tanto moradores da comunidade, quanto parte da classe média que para chegar aos muros seguros de seus condomínios precisam enfrentar a temida estrada.

Mais uma vez, as consequências da necropolítica estatal, executou uma jovem negra e seu filho ainda no ventre, sob o suposto argumento já batido de garantir a ordem e combater o tráfico local.

Além de executar duas vidas negras e destruir uma família inteira com seus sonhos, a ação policial, alinhada a narcopolítica do Estado, apreendeu um carregador de fuzil, munições de calibre 9mm e drogas.

Mãe e pai observam a foto de Kathlen no enterro. “Muito linda a minha filha”, disse a mãe ao sair do cemitério. (Reprodução/arquivo Google)

Resta claro que, o confinamento é um dos meios de sobrevivência aos que ali vivem, e não por medo do vírus da COVID-19, mas pelo medo de ir e vir imposto pela necropolítica que dizima os jovens pretos e favelados que ousam sair de suas casas e cometem o crime de tentarem viver como jovens comuns.

As políticas públicas precisam estar alinhadas as reais necessidades dos que ali sobrevivem diariamente sem voz, seja pela imposição do tráfico que cala a população através da lei do silêncio, ou pela criminalização e invisibilidade impostos pela sociedade e pelo Estado.


HERÉDIA ALVES é advogada Criminalista e do Terceiro Setor, especialista em Direito Público, diretora de Projetos do Instituto Anjos da Liberdade, presidente Estadual do Instituto Nacional de Combate a Violência Familiar, advogada da Associação de Moradores da Vila Mimosa, membro da Comissão de Direitos Humanos OAB/ RJ e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.

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