Por Lincoln Penna

• Como é possível passar pelas ruas, praças e vielas e ficar indiferente ao encontrar inúmeras pessoas sem teto, sem renda que garanta seu sustento e de seus filhos. A maioria crianças às quais são negadas sequer o direito de brincar e exibir sua ingenuidade diante da avareza dos passantes. O que é Isso?

• Ouvir e assistir matérias jornalísticas sobre mortes de “balas perdidas” nas comunidades pobres e favelas das grandes metrópoles, e manter-se alheio as dores dos familiares a clamarem por justiça que nunca vem. Suas vítimas: crianças, jovens e trabalhadores. Gente do povo, indefesa, a desfilar suas perdas dia a dia. O que é Isso?

• Tomar conhecimento de relatos de homens e mulheres, sempre a enfrentar o desemprego e considerar tais depoimentos como algo natural numa sociedade cuja crise se alastra por todos os cantos, de modo a acentuar a terrível e avassaladora desigualdade social. O que é isso?

• Ser informado de que policiais militares processados por crimes cometidos em ações de defesa do cidadão, comprovadamente atestado por testemunhas, têm sido sistematicamente isentados, inocentados e reintegrados aos batalhões e efetivos militares. Para coroar essa impunidade, agora temos pela frente o projeto lei sobre Excludente de Ilicitude. Ou seja, um passaporte para matar para os agentes policiais em supostos confrontos com a bandidagem. O que é isso?

• Tomar ciência de que para uma eleição de renovação da mesa da Câmara Federal e do Senado bilhões de reais foram injetados para o que se configura como compra de votos de políticos que desonram seus compromissos como representantes do povo, e nada é feito pelo poder judiciário, assim como passa como fato corriqueiro e secundário aos cidadãos de bem (?) num país de tantas carências, sendo a mais urgente a da defesa das vidas diante da atual pandemia, que não acabou, mas que continua a ser vista como algo também natural. Afinal, “todos nós morreremos um dia”, não é capitão da reserva? O que é isso?

• Brecar as iniciativas da ciência e as pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em troca de uma orientação baseada no achismo no caso do combate ao vírus, sob o pretexto de que é preciso prevenir o mal através de medicamentos não comprovados pelos órgãos e agências internacionais credenciadas, não é só uma atitude negacionista, mas é parte de um projeto de desmonte do Estado e do conhecimento, instrumentos fundamentais na vida de uma sociedade organizada. Resistir a essa compreensão é parte desse projeto de imbecilizar e embrutecer o povo. O que é isso?

• Considerar as manifestações culturais como formas de incutir um viés ideológico, que contraria os valores da família brasileira ou assistir passivamente a criação de “Escolas Militares” para combater as “ideologias de gênero”, e assim deixar “passar a boiada” da mais completa pauta de obscuridade que o país assistiu até hoje. O que é isso?

• Admitir que a corrupção, mote para a eleição do presidente Bolsonaro não só jamais foi verdadeiramente combatida como tem sido uma prática corriqueira nesse governo, a começar pelos seus familiares consanguíneos e a grande família que o cerca. Cadê o Queiroz? Cadê o advogado do senador Flávio Bolsonaro? Aquele que escondeu o Queiroz em seu aprazível sítio? E a apuração do crime que tirou a vida da vereadora Marilelle Franco e de seu motorista Anderson Gomes? E as vultosas economias derivadas das “rachadinhas” na ALERJ? Entre tantas outras falcatruas. O que é isso?

• Assistir sem reação ao uso vergonhoso do auxílio emergencial por parte do presidente para subir nas pesquisas eleitorais, desde já candidato à reeleição, para depois de alcançado seus objetivos imediatos deixar de lado os mais vulneráveis, sob alegação de que não pode ser ultrapassado o teto de gasto orçamentário sob pena de inviabilizar o governo e suas metas. É a lógica de economistas liberais ou falsidade ideológica mesma? O que é isso?

• Propor reduzir benefícios e salários de servidores (salvo os militares, naturalmente) para poder evitar gastos excessivos e assim contribuir para a estabilidade de um governo sem projetos que digam respeito ao povo e à nação, senão aos seus próprios grupos de interesse. O que é isso?

• Adotar uma política externa que priorize parceiros confiáveis com o propósito de evitar o contágio das ideologias exóticas, que também atendem pelo nome de comunismo, em detrimento de uma política de ampla cooperação, quando o Brasil teve até então uma diplomacia elogiada e reconhecida por todos os países. E o pior: ter de se alinhar à doutrina do falso filósofo Olavo de Carvalho, idealizador do Mito. O que é isso?

• Isso é o capitalismo a funcionar numa sociedade autoritária, preconceituosa, subserviente a modelos supostamente superiores, racista e intolerante, além de alheia ao sofrimento de seus concidadãos e profundamente desigual. Retrato intocável das nossas classes dominantes brasileiras, que conseguem fazer fluir junto às classes médias, convencidas de que um dia chegarão a desfrutar os prazeres das classes superiores. Quanto ao povo, este se mantém em seu traço comum de solidariedade mesmo na pior das adversidades. E cada vez mais consciente de que de cima, nada a esperar.

Logo, cabe a ele, povo, organizar-se para um dia passar a limpo a nossa história e todos serem felizes.


LINCOLN DE ABREU PENNA – Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP); Conferencista Honorário do Real Gabinete Português de Leitura; Professor Aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (Modecon); Colunista e Membro do Conselho Consultivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre.