Por Iluska Lopes

A única bebida genuinamente brasileira expandiu seus horizontes e passou a ser degustada em terras estrangeiras, principalmente na Europa. A Magnífica, cachaça queridinha do Brasil, especialmente dos cariocas, ganhou muitos admiradores lá fora também. Para entender melhor esse mercado e as mudanças de hábitos e gostos dos consumidores, subimos a ladeira (Daniel Mazola e eu) até o bairro de Santa Teresa para conversar com João Luiz de Faria, 77, proprietário do rótulo da Cachaçaria Magnífica de Faria.

Ao chegar no antigo Casarão colonial que pertenceu ao conselheiro do Imperador D. Pedro II, Zacarias de Góis e Vasconcelos, hoje escritório da Cachaçaria Magnífica, fomos gentilmente recebidos por João Luiz, que simpaticamente nos contou a história da propriedade e seus encantos, onde também reside.

Caminhando e conversando pela propriedade ele nos mostrou a capelinha, os azulejos portugueses, onde foi o estábulo, esculturas, a antiga fonte e detalhes da belíssima arquitetura, restaurada e preservada. “Em 1985 lancei-me na aventura de resgatar nossa tradição e produzir uma cachaça de qualidade nas montanhas do Rio de Janeiro, no Município de Vassouras. Convencido do imenso potencial da cachaça empenhei-me junto com outros produtores e órgãos do setor, pelo seu reconhecimento, valorização e qualificação trabalhando na criação do Programa Brasileiro da Cachaça – PBDAC em 1997, que deu origem em 2006 ao Instituto Brasileiro da Cachaça – IBRAC. No mesmo ano o Ministério da Agricultura criou a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça, da qual tive a honra de ser nomeado como primeiro Presidente”.

Casal Magnífico: Maria do Carmo Bettencourt de Faria e João Luiz de Faria, desde 1964 casados e radicados no bairro de Santa Teresa

Aguardente, cana, pinga, parati, calibrina, água-de-cana, bico, branquinha, água que passarinho não bebe, são algumas das diferentes denominações e apelidos dados à cachaça. Inicialmente a cachaça Magnifica se chamaria Stela em homenagem à avó de sua esposa “Cal” (apelido carinhoso) que todos os dias bebia um cálice de cachaça e sempre dizia que este era o segredo da longevidade, viveu mais de cem anos. Como não conseguiu a patente, a homenagem mais do que justa, ficou para a queridíssima esposa “Cal”, Maria do Carmo Bettencourt de Faria.

João Luiz explicou: “na época de registro da marca, minha esposa era a Magnífica Reitora da Universidade Santa Úrsula. Daí a origem do nome escolhido. Outro momento importante da nossa história, foi quando em 2003 formamos uma parceria com a cadeia de restaurantes inglesa ‘Las Iguanas’. Junto com eles, temos criado nos consumidores da Europa a cultura e o prazer de se degustar as melhores caipirinhas e cachaças. Depois dos ingleses, o interesse pela Magnífica surgiu em vários outros países. Hoje a exportação garante boa parte do lucro”. O Brasil produz mais de um bilhão de litros de cachaça por ano e exporta o destilado para mais de 60 países.

Prêmio na Itália

Em junho do ano passado, a Magnífica Reserva Soleira levou o prêmio de melhor cachaça envelhecida no ShowRum Tasting Competition 2016, primeiro e mais importante evento italiano dedicado ao rum e à cachaça. Um júri, composto por 15 especialistas, nove italianos e seis de outros países, classificou a Magnífica Reserva Soleira como a melhor entre as dez marcas participantes da competição.

Segundo João Luiz, a seleção especial e limitada é produzida com um conceito exclusivo. “O método exclusivo, aplicado pela primeira vez na produção de cachaças, composto por mais de 200 tonéis de Carvalho, onde a bebida permanece envelhecendo por um período que se estende de 3 a 10 anos. O resultado é uma cachaça de aroma, sabor e coloração proveniente do carvalho e com baixa acidez”. Durante a degustação da Magnífica Reserva Soleira, que gentilmente nos foi servido pelo proprietário, constatamos o alto padrão de qualidade da cachaça.

De acordo com João Luiz, as multinacionais que dominam o mercado mundial de destilados não têm a cachaça em seus portfólios. “Não querem pagar o custo de colocar um novo produto no mercado, para exportar tem-se que encontrar outros caminhos, como cooperativa por exemplo. Mas aos poucos estamos vencendo. Hoje sinto orgulho pelo reconhecimento que a Magnífica vem recebendo, acumulando vários prêmios, sendo o maior destaque a classificação da Magnífica Reserva Soleira em 2° lugar na Cúpula da Cachaça de 2014, entre mais de 1000 cachaças, confirmando o alto padrão de qualidade dos nossos produtos. Nossa produção anual é de 500 mil litros”.

João Luiz e o jornalista Daniel Mazola na Capela do Casarão de Santa Teresa

A História da Cachaça confunde-se com a história do Brasil. Com o surgimento dos primeiros engenhos no século XVI, iniciou-se o Ciclo da Cana que hoje tem na Magnífica seu grande legado. Brindemos!


ILUSKA LOPES – Jornalista, locutora, colunista e diretora de redação do jornal Tribuna da Imprensa Livre