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7 de Setembro de 1822, os livros da História oficial, controvérsias
Independência ou Morte é uma pintura do artista brasileiro Pedro Américo. É considerada a representação mais consagrada e difundida do momento da independência do Brasil, sendo o gesto oficial da fundação do país (Reprodução)
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7 de Setembro de 1822, os livros da História oficial, controvérsias 

Por José Macedo

O Grito da “Independência” foi resumido em um quadro, pintado pelo artista, Pedro Américo, em Florença, na Itália, no ano de 1888, 66 anos, após o “Grito do Ipiranga”. Para todos nós, a pintura de Pedro Américo traduzia e dava autenticidade ao episódio.

O grito de “Independência” do Ipiranga, pronunciado por D. Pedro I, restou em nosso imaginário, de que éramos uma nação independente e livre, pelo menos, a partir daquele acontecimento “politico”. Mas, Portugal insistia e tentava ocupar parte de nosso território, que esteve na iminência de ser dividido.

Na Bahia, no Maranhão e no Pará, ocorreram conflitos e lutas entre portugueses e a população local, durante meses. A suposta “independência política” não significou a imediata integridade territorial. A discutida Independência política, sem participação popular, foi um equívoco histórico e restou incompleta, refletindo em nosso jeito de ser, quem sabe, um povo acomodado e paradoxal, que ainda acredita no sebastianismo e mitos. As controvérsias são extensas e profundas, segundo estudiosos, historiadores e economistas. Tenho esperanças de que, em algum dia, a história seja reescrita com suas correções.

Essa compreensão, no contexto atual, exige a inclusão de outras variáveis e não nos desvencilha das atuais responsabilidades diplomáticas e econômicas, diante da importância da narrativa verdadeira, de nossa história, que significa nossa identidade e condição de nação, que almeja ser soberana e, verdadeiramente, independente. Mas, essa discussão demanda mais espaço e tempo. Contudo, foi na Bahia, onde, de fato, deu-se passos concretos para a obtenção de nossa Independência política.

Primeiro, a expulsão dos portugueses de nosso território deu-se pela vontade do povo, diferente do controvertido episódio às margens do Ipiranga, em São Paulo. Em 02 de julho de 2020, o que é correto, completamos 197 anos, da consolidação da Independência do Brasil, quando o povo baiano, no ano de 1823, bravamente, expulsou de seu território os portugueses, considerados seus opressores. Foi uma luta popular, onde houve, de fato a participação do povo, fazendo com que, 02 de julho de 1823, seja a data marcada por muitos símbolos e significados em nossa história.

Minha atenção principal está, exatamente, no envolvimento popular, nessa conquista, o que não ocorreu naquele 07 de Setembro de 1822. Aqui, essa luta tem importância e sua legitimidade. A bravura de nosso povo estendeu-se, desde as cidades do Reconcavo, citando, Cachoeira, Santo Amaro, juntando-se o povo dessas cidades com a população de Salvador, em ferrenha luta contra os indesejados invasores. Os portugueses não resistiram, foram escorraçados, impiedosamente, praticamente, um ano, após setembro de 1822. Chamo a atenção sobre a participação feminina na independência da Bahia que foi a do Brasil. Nessa luta, destaco as guerreiras, Maria Quitéria de Jesus; a noviça, heroína Joana Angélica e a valente Maria Felipa de Oliveira. Sobre esta última personagem, em artigos anteriores, mostrei sua histórica importância, representando todos os heróis invisíveis e anônimos nessa bravura e histórica vitória. Descrevo sua importância com entusiasmo, em função da participação da mulher baiana.

Em artigo anterior, hoje, reproduzido, com pequenos acréscimos, descrevo o que significou para os baianos e para os brasileiros essa revolucionária e histórica vitória, que poderia ser um exemplo para os dias atuais. Quando estudante, em Salvador, com entusiasmo e curiosidade, assistia os desfiles de 02 de julho. Esses desfiles eram para mim aulas de história e de cidadania. Em todo tempo, portava-me como aluno e maravilhado, observando a seriedade e participação dos baianos, de todos que estavam nas ruas, nas manhãs dos festejos. Enfatizo, com muita admiração, a participação do povo, envolvido, como se estivesse a caminho de uma batalha. Na verdade, os desfiles de 02 de julho contagiam e é indescritível a tamanha empolgação de todos. As músicas enebriam e a postura de todos nós, numa quase verdade de que, ali, estávamos expulsando de nossa terra os opressores. Nesse dia de festa cívica e histórica, dezenas de bandas de sopro, crianças, idosos, estudantes de dezenas de colégios e entidades da sociedade civil e militar se unem no mesmo entusiasmo.Tive a grata satisfação de que aquela imensidão de gente, tocando e marchando reproduzia a fé na vitória de uma justa guerra. Assim, no curso dessa festa, da bravura de nossos ancestrais, eu parava, imaginava e concluía: nosso povo não se curva diante de seu opressor, quando dele, a pátria necessita.

O ano de 1823 foi significativo e emblemático. Um dia, quem sabe, com a mesma bravura e valentia, expulsaremos os atuais opressores e invasores de nossa terra, sejam eles externos ou internos. O povo baiano possui em sua história belos exemplos de bravura e de brasilidade. Assim, 02 de julho é, de fato, a data de nossa independência, posso dizer, nunca 07 de setembro, como se doutrinou e ensinou nas escolas. 07 de setembro não possui qualquer legitimidade, até porque inexistiu participação do povo e a vontade popular naquele controvertido episódio, retratado no quadro de Pedro Américo. O 02 de julho, ao contrário, deveria ser celebrado por todos os brasileiros, do mesmo modo que os baianos festejam e cultuam, com altivez e sentimento de brasilidade. É uma pena o que se divulga e a forma de celebração da Independência do Brasil. Trata-se de mais uma farsa, essa mentira repetida e ensinada nas escolas.

Escrevi esse texto, envolvido em autênticos sentimentos de brasileiro e de baiano, acreditando em um País melhor e politicamente, consciente, acreditando que, um dia, teremos escolas de qualidade e um povo, cidadão alfabetizado, como imaginou Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, entre outros. Somente, com escolas formaremos cidadãos brasileiros, politicamente, honrados e conscientes. Sou um apaixonado pelo assunto, por isso, a cada ano, procuro tecer novos comentários, até porque, o tema traz lembranças de meu tempo de estudante. Considero o tema inesgotável, possível de novas abordagens, sem contudo, modificar nosso entendimento e visão iniciais. Queria ser otimista, mas é difícil ao ver nosso Pais governado por um presidente ilegitimo, que usa do poder para benefícios pessoais, de sua família e de sua trupe, não representa o bem comum, não cultiva valores de nação soberana e livre. Enfim, hoje, constato tamanho retrocesso em nossas conquistas históricas, desrespeito a princípios constitucionais e legais, que, com certeza, esse governo envergonha o cidadão de bem e, perante o resto do mundo, tornamo-nos ridicularizados ou objeto de pena.


JOSÉ MACEDO – Advogado, economista, jornalista e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.

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