Por Sérgio Vieira –

Portugal / Europa – Séc. XXI.

Escrevo esta coluna, às vésperas dos festejos do cinquentenário da Revolução dos Cravos aqui em Portugal. Já se fazem sentir em todos os setores da vida portuguesa a proximidade da data do 25 de Abril.

Corria o ano de 1974…íamos em meados de março, e fortes rumores já indicavam a iminente queda de uma ditadura de 48 anos. Os movimentos dentro dos quartéis já se faziam sentir, ainda que timidamente. A população andava literalmente em efervescência e sempre à espera que algo de muito importante fosse se passar.

Neste dia, 25 de abril: Revolução dos Cravos - O Bichinho do Saber

Tudo começou, quando a emissora nacional de rádio portuguesa lançou a música de Paulo de Carvalho / E Depois do Adeus. Era a senha sonora para as tropas militares deixarem os quartéis e invadissem as ruas da capital Lisboa. E foi ao som de outra música, essa de autoria de Zeca Afonso / Grândola Vila Morena, que seria o segundo sinal para colocarem os militares revoltosos em marcha. Com esta música, do Zeca, consolidou-se a revolução de 25 de Abril de 1974.

Uma revolução historicamente pacífica, como nenhuma outra no mundo. Constam nos livros, a morte de 4 pessoas, e ferimentos em outras 45. Saliente-se, que, todos os disparos das armas foram feitas pelas forças do antigo e debilitado regime de Salazar. Mais propriamente pelas forças da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) Em uma revolução de caráter nacional, e somente em um povo de índole pacífica, é que se poderia chegar a um número tão baixo de vítimas.

1974: Revolução dos Cravos em Portugal – DW – 25/04/2018

Cabia à PIDE, perseguir, prender, interrogar e torturar, qualquer pessoa que fosse visto como inimigo e opositor à ditadura de Salazar (Antônio de Oliveira…)

O 25 de Abril de 1974, tem como símbolo, o icônico cravo vermelho, ostentado orgulhosamente por todos aqueles que lutaram contra a ditadura Salazarista (e lazarenta!). Este mesmo cravo vermelho, que hoje vemos na lapela de hipócritas e demagogos políticos, que nada têm a ver com o 25 de Abril. Pelo contrário, defendem valores diametralmente opostos aos princípios e ideais da revolução de 1974.

A Ditadura Nacional (1926/1933) e o Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933/1974) foram, somados, o mais longo regime autoritário na europa ocidental durante o Séc. XX. Foi essa mesma ditadura, que ceifou muitos milhares de vidas em batalhas já perdidas nas antigas colônias portuguesas, e cito: Angola, Moçambique, Guiné e outras. Corriam os anos de 1974 e 1975, e acontecia o êxodo em massa para Portugal continental dos portugueses que haviam optado por ir para essas antigas colônias e fazer delas os seus países de acolhimento. Não se sabe até hoje o número exato dos chamados “retornados”. Foi assim com este adjetivo que ficaram conhecidos os que voltaram a Portugal, e assim foram (e são) estigmatizados até aos dias de hoje.

Heróis anónimos da Revolução dos Cravos

Retornando às agruras de Salazar. Este, não hesitava em mandar matar a quem se opusesse a ele. Milhares e milhares de pessoas perseguidas e mortas nos calabouços da temida PIDE. Mas houve alguém que se opôs valentemente ao seu caráter ditatorial. Esse alguém, foi o general Humberto Delgado. Conhecido até hoje, como o “general sem medo”. Humberto Delgado lançou sua candidatura às eleições para presidente da república em 1958. Apesar da campanha de Delgado ter corrido Portugal inteiro com banhos de multidões atrás de si, e com uma aceitação popular imensa, sua eleição não se concretizou. Foram descaradas as fraudes eleitorais detectadas nas urnas. Mantinha-se, assim, por mais uns anos perpetuada a figura de Salazar no poder. Não satisfeito com a vergonhosa vitória, ainda, mandou executar Humberto Delgado, em terras de Espanha, em 1965, assassinato este, perpetrado também pela PIDE.

De todos os militares ligados à revolução de 25 de abril, destaca-se a figura de Salgueiro Maia (Fernando José Salgueiro Maia – nasc. 01.07.1944, morte 03.05.1992). Tendo, este, iniciado a preparação do golpe em 1973, com reuniões clandestinas do MFA (Movimento das Forças Armadas). Salgueiro Maia, como delegado de cavalaria, integra a comissão coordenada do movimento que culminaria com o golpe de abril de 1974. Coube também a ele à condução de Marcello Caetano, (primeiro-ministro deposto) ao avião qeu o levaria até ao seu exílio no Brasil.

Cadê a Revolução dos Cravos brasileira? – DW – 06/09/2022

O 25 de abril, deu origem à obtenção de direitos esquecidos durante a ditadura de Salazar, como por exemplo: Direito à licença de maternidade por um período de 90 dias. Direito ao divórcio nos casamentos religiosos. Serviço Nacional de Saúde (saúde para todos). Educação (a taxa de analfabetismo era gigante). Liberdade de expressão. Salário mínimo nacional e pensões sociais. Acesso ao livre emprego. Eleições livres. Férias e licenças no trabalho. Direito ao pagamento do 13º mês / subsídio de natal. Horário de trabalho das 48 para as atuais 40 horas semanais, com dois dias de descanso. Direito à greve, e muitos outros.

O movimento de abril de 74, teve um impacto tão grande na jovem democracia portuguesa, que abundam por este país afora, ruas, avenidas, praças, pracetas, becos, espaços culturais…enfim, tudo foi motivo para renomear estes espaços com o nome de “25 de Abril”. O mais emblemático, talvez seja a ponte que liga as duas margens do rio Tejo (Lisboa) a belíssima “Ponte 25 de Abril”, que ostentava até então o nefasto nome do ditador português.

Hoje, celebramos a Revolução dos Cravos

Ficam de “Abril” as seguintes frases:

– Plantaram em nós a liberdade, não a deixemos morrer!

– O socialismo está em construção. Visite o andar modelo!

– A terra a quem a trabalha!

– Se isto não é o povo, então o que é o povo? Viva o 25 de Abril!

– O povo é quem mais ordena!

Chico Buarque, escreveu na altura: “Sei que estás em festa pá! Fico contente, enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim!”

Por último, uma reflexão minha: Por mais que tentem (e estão a tentar…) nunca nos farão esquecer os valores de Abril, as conquistas de Abril!

Viva Portugal, Viva o 25 de Abril de 1974!

A Revolução dos Cravos faz 48 anos - A Terra é Redonda

SÉRGIO VIEIRA – Colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre, representante e correspondente internacional em Aveiro, Portugal. Jornalista, bancário aposentado, radicado em Portugal desde 1986.

Envie seu texto para mazola@tribunadaimprensalivre.com ou siro.darlan@tribunadaimprensalivre.com


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