Por Geraldo Pereira –

Há pouco, lembrei-me do saudoso amigo Heráclito Fontoura Sobral Pinto, mineiro de Barbacena, advogado, o segundo maior, que o Direito brasileiro produziu ao longo de sua existência, o primeiro foi o baiano Rui Barbosa.

A influência que Sobral Pinto exerceu na minha, quase longa, vida foi extraordinária. A ele, e também a outro grande ser humano, baiano de ilhéus, mestre João Mangabeira, devo o profundo sentimento de amor ao próximo, de solidariedade e compreensão para com os mais humildes e necessitados.

Foi Jorge Amado, quem me apresentou ao mestre Sobral Pinto. Já o admirava, desde 1944., quando li a biografia de Luís Carlos Prestes, editada na Argentina, escrita por Jorge e, que me chegou às mãos em plena ditadura de Getúlio Vargas.

A coragem de Sobral Pinto, seu caráter, sua longa existência dedicada ao Direito, ao próximo e à liberdade, da qual se tornou amante amantíssimo, e em sua defesa, por duas vezes, foi preso, nos períodos ditatoriais de 1937 e 1964. Foi uma amizade que durou quase meio século, tínhamos a mesma paixão pelo América do Rio, pertencemos durante anos ao seu Conselho Deliberativo.

Passei, boa parte do Domingo, ouvindo uma das muitas gravações que fizemos, dos nossos ‘bate-papos’, o assunto era Getúlio Vargas, seu inimigo político, por quem não tinha a menor simpatia.

Ouço a fita, na qual lhe pergunto: “Mestre Sobral Pinto, Getúlio Dorneles Vargas, governou o Brasil, como seu presidente, durante 18 anos 9 meses e 24 dias. Desses, quase dezenove anos, sete foi como ditador.”

Eleito Presidente da República, em 1950, foi levado ao suicídio, em 24 de agosto de 1954, deixou de herança para Dona Darcy sua esposa, duas fazendas, no Rio Grande do Sul, herdadas do pai, ambas com dívidas.

“Mestre Sobral Pinto, alguma vez o senhor ouviu falar mal, alguma coisa nesse sentido, sobre a honestidade de Getúlio?”

Responde-me com veemência arrebatadora: “Não! Nunca! Como presidente, ele era um homem honesto. Não se tem notícias de um ato contra a sua honestidade”.

Digo: “Sobral, afirmaram, na época, que ele tinha deixado muito dinheiro.”

Fixando-me nos olhos, com uma voz branda, acrescenta: “Deveria ter algum dinheiro, porque como presidente da república, ele tinha tudo pago pela Nação, não tinha despesas, devia ter juntado.”

Sobral Pinto, que dignidade!

*Geraldo Pereira é jornalista especializado em história política e sindical do Brasil, atuando por mais de 60 anos nos principais veículos de comunicação do país, ex-presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e colaborador da Tribuna da Imprensa Livre.