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Se Zeca fosse um vinho
Samara Portela é consultora, pesquisadora da cultura do vinho e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre (Divulgação)
Colunistas, Gastronomia

Se Zeca fosse um vinho 

Por Samara Portela – Sommelière –

Comunicar vinho tem dessas coisas. Em uma hora estamos explicando que os taninos são substâncias encontradas na pele e na semente das uvas, podendo causar uma sensação de secura no paladar similar a tomar um chá preto. Em outra, estamos argumentando que se Zeca Pagodinho fosse um vinho, certamente seria um espumante.

As comparações ajudam a incrementar a experiência da degustação. É possível atribuir termos da anatomia humana como “esbelto” ou “musculoso” para entender o corpo de um vinho. Repare na diferença entre um gole d’água e uma colher de iogurte: o primeiro é leve, o segundo é encorpado. Indo aos extremos, um é Pinot Noir, outro é Tannat.

Quando fazemos uma análise técnica, também usamos analogias. Falar em notas de pétalas de rosas significa que na taça há cheiros que nos evocam essa flor, e não que ela está, de fato, ali. É por isso que um brasileiro consegue determinar facilmente aromas de açaí, caju e jabuticaba, já incorporados em seu repertório de lembranças, enquanto um sueco identifica com destreza as reminiscências de frutas silvestres como framboesa e amora, tão comuns nos tintos.

A opinião que emitimos de um vinho está associada a circunstância em que o tomamos. Por exemplo, a música modifica a percepção do sabor. Há um famoso estudo realizado em Oxford que concluiu que o Domaine Didier Dagueneau Pouilly Fumé 2010 harmoniza melhor com Mozart do que com Tchaikovsky, que seria o acompanhamento ideal para o Château Margaux 2004. Em outro teste, os participantes sentiram um Cabernet Sauvignon chileno até 60% mais robusto ao escutar “Carmina Burana” enquanto o avaliavam.

Para além da subjetividade, é sempre bom lembrar que algumas regras têm seu fundamento. A não ser que você more em uma cava subterrânea em Reims, esqueça a tal da temperatura ambiente. Especialmente no Brasil, é recomendado deixar o vinho tinto na geladeira por 15 minutos antes de abri-lo. Mas, atenção, porque o frio em excesso tampa os aromas e ressalta o amargor; já o calor, o álcool.

E como estamos falando de música, proponho um exercício. No domingo, abri um Philippe Caraguel Extra Brut enquanto preparava o almoço. Método Champenoise, 12 meses sur lie, outros 4 descansando na garrafa. Refinado, cremoso, fácil de tomar, refrescante. Se fosse um personagem, pensei, seria Zeca Pagodinho. Elegância sem elitismo, pronto para ser aberto a qualquer hora do dia e alegrar o ambiente, borbulhas saltitantes que sambam em direção ao topo da taça. Sem esquecer, claro, da presença imponente da espuma para honrar a cerveja que sabemos que ele ama. Agora me conta, quem seria o vinho que você está tomando hoje?


SAMARA PORTELA es una sommelière de Rio de Janeiro viviendo en Buenos Aires, se recibió en la Escuela Argentina de Sommeliers y es licenciada en Historia del Arte. Ha trabajado en el servicio gastronómico y actualmente es consultora e investigadora de la cultura del vino.

SAMARA PORTELA is from Rio de Janeiro and lives in Buenos Aires. She has a certificate from Escuela Argentina de Sommeliers, CETT Barcelona. She also has a degree in Art History. Samara worked at the El Baqueano restaurant and she is currently a consultant and researcher on wine culture.

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