Por José Macedo

Tomei a iniciativa de escrever um pouquinho de minhas lembranças e pesquisas.

Há dois anos, fiz uma visita ao Centro da cidade, precisamente, ao trecho da “Cidade Alta”, que, sempre, motivou-me por suas curiosidades, por seus edifícios de construções e arquitetura antigos, hoje, descuidados, alguns destruídos. Ao que parece, é o destino das grandes metrópoles. Salvador não é diferente.

Monumento, estátua do poeta Castro Alves. Salvador, Bahia. Praça Castro Alves. A praça é dele, merecidamente. (José Macedo/Arquivo Pessoal)

Meu ponto de partida é a esquina da Rua Chile com a Praça Castro Alves. Chego ao pé da estátua do poeta dos escravos e do “Navio Negreiros”. Vejo-o inquieto e não satisfeito com o que ocorre no Brasil e em sua Bahia, vejo-o concordando com Gregório Matos, do outro lado, insatisfeito e bradando: “Triste Bahia…!”. Os edifícios são velhos, as ruas têm pouco movimento, o silêncio é quebrado pelas britadeiras de operários em obras, removendo asfaltos, reconstruindo-os. Apesar de tudo, ainda, as ruas e edifícios guardam seu passado de glória e de glamour. Há esperança, vejo aquelas ruas em recuperação e hotéis modernos, como o Pestana e o Chile. São os contrastes de nossa cidade, o luxo, de um lado, a miséria, do outro.

Cinema Glauber Rocha, Salvador. (Divulgação/Gov. Bahia)

A Praça Castro Alves com o famoso monumento, Estátua de Castro Alves, chama a atenção de quem, por ali passa. Merecidamente, aquela praça é do poeta, penso, naquele instante! Essa praça leva-me aos grandes carnavais da década de “70” e dá saudades.

Quanta recordação!

No entorno, além de Castro Alves, temos o cine Glauber Rocha e, do lado, Gregório de Matos, o Boca do Inferno, revoltado, em uma reprodução de “sua triste Bahia…, fiquei ouvindo, por meia hora. Sigo pela Rua Chile que, nas décadas “60”, “70” e “80”, existiam lojas, chiques, Sloper, Mesbla etc. A Rua Chile, na época, era um Shopping horizontal, frequentada pela aristocracia baiana.

Finalzinho de tarde na Baía de Todos-os-Santos, vista do Elevador Lacerda. (Imagens: Divulgação/Setur)

Em seguida, alcanço a Praça do Elevador Lacerda, que dá acesso à Cidade Baixa, do lado esquerdo da Praça está o Palácio do Governo do Estado (antigo), em processo de transformar-se em hotel. Com certeza será objeto de discussão, de generalizadas e profundas controvérsias. Ainda vislumbro o prédio da Câmara Municipal e uma outra construção, de mau gosto, onde funcionam repartições da Prefeituras Municipal.

Esse pedaço da cidade foi, no passado, o pulmão de uma época, não muito distante.

Igreja e Convento de São Francisco, Salvador – Bahia. (Divulgação)

Seguindo, chegamos ao Terreiro de Jesus, a Catedral, a igreja de São Francisco, a Faculdade de Medicina, a primeira do Brasil, onde está o Instituto Medico Legal, Nina Rodrigues, cujo nome o homenageia. Adiante, está o Pelourinho, este espaço arquitetônico abriga histórias, hoje, destino de turistas e de quem quer viver e ver sua arquitetura, suas igrejas, suas lojas e saborear da culinária baiana. O Nina Rodrigues, Instituto de Medico Legal, anexo à Faculdade de Medicina, recebeu, também, a cabeça de Antônio Conselheiro, após desenterrada, em Canudos, para ser examinada, após a guerra. Do mesmo modo, as cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros. Todas as cabeças, a priori, já eram recebidas como sendo de bandidos, segundo a genética da época, de uma raça inferior, pois assim eram por serem descendentes, da mistura da raça branca, do negro e do índio.

Cabeças cortadas do bando de Lampião. (Wikimedia Commons)

O médico legista, Nina Rodrigues, também, psiquiatra, cientista e adepto, propagador da teoria de Cesare Lombroso Cesare Lombroso, médico italiano, estudioso da criminologia, sob o enfoque da delinquência e do indivíduo, a teoria do criminoso nato, ainda sob a visão determinista da hereditariedade. Para Cesare Lombroso e seus ilustres seguidores, o criminoso não se liberta de sua origem, herança e ancestralidade. Euclides da Cunha, engenheiro de formação militar, que escreveu o célebre livro, “Os Sertões”, esteve em Carnudos, era um seguidor desse falso cientificismo da época. Certa vez, fui surpreendido, por um amigo, com a pergunta: “Macedo, o Antônio Conselheiro não era maluco e assassino da própria mãe? Era uma pessoa de nível superior e politizada. Quem lê “Os Sertões encontra citações sobre “o homem inferior”, teoria lombrosiana. Por isso, a cabeça de Conselheiro e depois, as dos mais famosos membros do Cangaço foram enviadas para serem estudadas sob os parâmetros cientificistas do determinismo, darwinismo e de Cesare Lombroso.

Fiz um rápido e superficial passeio ao Centro de Salvador, que guarda substanciais fatos de nossa história. Fiz essa rápida passagem, por pessoal motivação e para quem queira adentrar em estudos mais aprofundados sobre esses temas.

O Primeiro Passo para a Independência da Bahia, Palácio Rio Branco, Salvador, Bahia. (Reprodução)

A cidade de Salvador guarda, ainda, locais de nossa esquecida história brasileira, apesar de tanto descuido e imprescindível preservação. Esse constatado abandono do que nosso ou de nosso passado, não é função do jeito de ser do baiano, mas dos povos periféricos e, culturalmente, dependentes e submissos. A cidade de Salvador é a origem e nascente de nossa rica história; porém, ou é desvirtuada ou esquecida. O pior é que, a escola e os historiadores, alimentados pela estupidez de governos, por dolosa vontade de escamotear a verdade, de esconder nossa identidade, optam pela mentira e esquecem dos fatos verdadeiros.

Forte São Marcelo, Salvador – Bahia. (Divulgação)

Assim, criam nuvens de fumaça e passam a cultivar valores de outros povos e culturas alienígenas, batem continência para outra bandeira, desprezo à nossa.

Nossa identidade e nacionalidade restam esquecidas, apesar do esforço de valorosos brasileiros.

Baía de Todos os Santos em 1612. (Reprodução)

JOSÉ MACEDO – Advogado, economista, jornalista e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.


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