Por Geraldo Pereira

Há 30 anos fazia eu essa matéria com o saudoso Diamante Negro – Leônidas da Silva: Leônidas – O sempre lembrado Diamante Negro.

Leônidas da Silva foi meu vizinho, aqui no bairro do Paraíso, na capital paulista. Aqueles que tiveram a felicidade de ver e aplaudir o futebol-arte dos tempos idos e vividos, nos campos brasileiros, em cujos gramados ele pontificou, não poderão jamais, esquecer o centroavante endiabrado, que fazia vibrar toda uma multidão, que marcou época no Botafogo, Flamengo, Seleção Brasileira, Penarol do Uruguai, São Paulo.

O criador da ‘bicicleta’ no futebol. Cantado em verso e prosa, marca de chocolate – o melhor que se fabrica no Brasil – Diamante Negro -, segundo minha querida neta Bianca. Produto fabricado pela Lacta há mais de meio século, em sua homenagem. Vou contar um pouco a história do Diamante Negro, para o leitor que o viu, e, para os novos, com a finalidade de resgatar um pouco a memória futebolística de nosso País.

Todas as manhas, é fácil encontrar Leônidas, sempre cercado pelo carinho, respeito e consideração dos são paulinos, aqui na Agência de Despachos Jahu, onde o assunto é sempre futebol.

Geraldo Pereira e Leônidas da Silva (arquivo pessoal)

Quando lhe pergunto qual a diferença do futebol daquela época para o atual, me responde de imediato: “Da água para o vinho, não tem comparação, pois, naquela época jogava-se o futebol. Hoje, joga-se patada”. Aproveito a ‘deixa’ e entro de sola, num assunto que ele não gosta mais de falar, aborrecido que está com a violência no futebol brasileiro, já há muitos anos.

Pergunto-lhe qual foi o maior jogador brasileiro de todos os tempos, responde-me na bucha: “Domingos da Guia, foi o maior de todos. Zizinho, também foi um grande jogador.”

Surpreso, mas satisfeito com a resposta, provoco o velho Leônidas: “Então você não faz parte da imensa legião de brasileiros que considera Pelé o maior do mundo?” Sua resposta: “Eu não cometo esse exagero”. “E quem revelou você para a Seleção Brasileira?” “Eu iniciei no São Cristóvão, meu pai tomava conta do bar do clube. Joguei lá uma temporada, mas foi no Bonsucesso que eu fui para a Seleção que foi à Itália”.

O assunto agora é política. O velho Leônidas está p… da vida com o presidente Collor, “Ele é um faroleiro, é um cara que quer se exibir, ele está fazendo um papelão. Não tem noção do ridículo. Não merece respeito”. Salvo o Collor de outras críticas e volto ao futebol.

“A seleção que foi à Itália era boa? Lembra-se do time? Passa um tempinho para responder: “O goleiro era Batatais, do Fluminense, era um negócio. Mas, na seleção, tremeu. O Walter do América, que era o reserva, terminou titular. Romeu na meia direita, eu no centro e Perácio na meia-esquerda. Domingos, zagueiro (não me lembro do outro zagueiro), Afonsinho na lateral esquerda, Martins era o centro médio, os pontas eram Hércules e Patesco. Tim era reserva, o Jaú também, assim como o Carreiro. Ademar Pimenta, era o técnico.”

Quero saber como nasceu a ‘bicicleta’, o gol de ‘bicicleta’. Ele responde: “Esse negócio foi criado pelos jornalistas. Os zagueiros gostavam de dar pontapé, me acercavam sempre. Como centroavante eu tinha de entrar na área. Chamei o ponta e disse-lhe: “levanta a bola que ele vai cabecear, aí eu pego a cara dele”. Comecei a ‘dar’, uma vez pegava na cabeça, outra no ombro, eles foram me respeitando e de tanto pular com as pernas para o ar, com o objetivo de acertar os zagueiros e a bola, terminei fazendo gols e mais gols, a ‘bicicleta’ começou assim.”

“E quando você esteve no Uruguai ganhou muito dinheiro?” Ri gostosamente, relembrando com certa saudade aquele tempo “A mulherada levou tudo. Mas, eu mandava dinheiro para minha mãe, no Rio minha mãe pensando que estava rico, gastou tudo, quando eu cheguei não tinha nada. Tive que começar tudo novamente”.

Peço que fale sobre os cartolas: “Os cartolas sempre houve, eles colocam o dinheiro no clube, para os jogadores, o Carlito Rocha, do Botafogo era muito bom. O Heleno de Freitas, jogou comigo lá.”

Agora eu volto à política. Leônidas, apesar de o Collor ter levado o teu dinheiro, você está bem de vida?” Indignado, responde: “O Collor tomou o meu, mas, vai devolver, não vai ficar assim não. Eu guardei dinheiro para não ocupar ninguém na velhice, eu via o jogador de futebol da minha época numa situação difícil. Guardei. Hoje não preciso ocupar ninguém.”

Quero saber quais foram o ‘cobras’ da imprensa na época. Responde: “Ary Barroso era o cronista da época, era muito meu amigo, tinha o Oduvaldo Cozzi e o Geraldo Romualdo”.

Volto ao seu tempo no Rio de Janeiro: “Você morava na Praça da Bandeira, porque não foi para o América, ali pertinho?” Passados tantos anos, ainda indignado, responde: “O América não me quis, eles achavam que eu não jogava, mas eu acho que foi o problema da cor”. Relembro a Cidade Maravilhosa, o Café Nice, Moreira da Silva, Silvio Caldas, este eu vejo sempre. Namorei a Elisete Cardoso, namoramos algum tempo, ela ainda não era cantora. Uma vez o Carlito Rocha levou a seleção carioca até o Palácio do Catete, Getúlio Vargas nos recebeu.”

O Diamante Negro, come bem, bebe bem? “Só uma vodca importada, de quando em quando, quanto a comida, “castigo bem”.

Vai sempre ao Rio? “No Rio eu vou para matar saudades. Eu sou carioca. Ficava sempre num apartamento do Agartino, agora fico num hotel. Quando a saudade aperta, eu vou lá e gasto um pouco de dinheiro”.

Quero saber quais foram os chutes mais fortes do futebol brasileiro. Ele me responde: “Perácio tinha um chute violento. Rivelino, mais calculado, mais técnico. Ambos foram grandes jogadores. Perácio, chute mais forte. Rivelino, mais perfeito.”

Leônidas, só mais duas perguntinhas para encerrar o papo: “Vocês ganhavam bem naquela época?” Responde-me: “Quando terminava o jogo é que se ia ver quanto deu a renda, para repartir a parte dos jogadores, o bicho. Deu para comprar uma casinha para os velhos, na Praça da Bandeira.”

“O contrato com a Lacta para a marca Diamante Negro, deu um bom dinheiro? Com orgulho responde: “Deu cem mil réis, era um dinheirão na época.”

Encerro esse bate-papo com Leônidas, perguntando-lhe: “E como é a vida de Leônidas, hoje?

“Tranquilíssima. Graças a Deus, passeio bastante, não tenho problemas. Antes da despedida, me pede dois favores: “Fale com o Moreira da Silva, pede para ele gravar no teu gravador, aquele samba que ele fala da ‘bicicleta’ do Diamante Negro. Procure o Domingos da Guia, faça uma entrevista com ele. Domingos merece”.

Dois momentos do jornalista Geraldo Pereira com o saudoso Diamante Negro – Leônidas da Silva (arquivo pessoal)

GERALDO PEREIRA – Jornalista especializado em história política e sindical do Brasil, atuando por mais de 60 anos nos principais veículos de comunicação do país. Ex-presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre.