Por Ricardo Cravo Albin

“Só encontraremos o fio de Ariadne para sair do caos atual se refletirmos em conjunto.”

De fato, a situação do Brasil nesses dias tenebrosos do crescimento da Peste pode escorregar para três soluções.

A primeira, como diria o cronista Antônio Maria (100 anos neste 15 de março) é chorar, simplesmente chorar até lágrimas de crocodilo, quando o amor não couber mais no peito. Aqui o amor alegórico se refere ao país insultado pelo desgoverno, não um coração masculino traído pelo amor desfeito. Essa, uma “maladie d’amour” bem mais amável.

A segunda, ainda agrupada à sabedoria poética do cronista agora centenário, é correr ao jardim mais próximo e colher flores silvestres, que as rosas andam ao preço da morte. Aliás, forçado ao sentido figurado, logo advirto que não serão flores, mesmo de segunda categoria, para alegrar eventuais namoradas, e sim para enfeitar os mortos pela covid, homenageando-lhes os corpos degredados ao vazio dos velórios.

De mais a mais, ao batermos a cifra absurda dos 300 mil óbitos, asseguro que as flores se tornarão os produtos mais especulativos e caros em meio a esse morticínio jamais visto, que lota todos os hospitais do país, tanto quanto os cemitérios. E é claro que abarrota tragicamente os necrotérios. Daqui a pouco chegaremos às covas coletivas, Auschwitz sem tirar nem por.

Esse cenário macabro ainda causa uma terceira, mas primicial indignação.

Afinal, pergunta todo um país de 220 milhões de almas – Como chegamos a esse ponto, quem se responsabiliza por essa tragédia?

São as tramas da sorte, são as provocações do destino astral? Até poderia ser se o país estivesse acéfalo sem um comando central. Mas a resposta se impõe em gravíssima interrogação. Temos mesmo governo? E até que ponto responsável?

Vamos por etapas, e não serei apenas eu a bramir indignação como cidadão. É o que ouço dia sim, dia também, nas ruas, nas rádios, nas TVs.

Cadê as vacinas para imunizar um país-continente? E quem foi o “distraído” que, ao não confiar nelas, sequer reservou com prioridade no mercado (então aberto) milhões de imunizantes? Cadê o estímulo e o exemplo à população para uso obrigatório de máscara e distanciamento social?

Quem foi o “distraído” que fez exatamente o oposto? Que “distraído” nunca se apercebeu de uma população tão despreparada culturalmente para recomendar não tomar vacina pelo risco de virar jacaré? Quem, a tal ponto “distraído” que quando teria contraído o vírus se disse com uma gripezinha, logo curado por remédio desacreditado pela ciência, a cloroquina.

E finalmente quem é o super “distraído”, ou antes o super cientista e economista mundial a negar os lockdowns, a ponto de chegar agora ao limite alucinatório de bater às portas do STF para impedir estados e prefeituras postos em desespero a ponto de decretar o extremo, o fechamento de suas cidades para tentar o fim da expansão do vírus letal?

O vulgo, ou seja, todos nós, queremos saber quem é o “distraído” que ao trocar o plácido general que se dizia ministro da saúde (o terceiro em um ano) se esqueceu de empossar seu substituto?

Com a gravidade da situação sanitária, a expectativa geral era que o novo ministro fosse assentado no cargo no exato minuto da confirmação de seu nome. Qual o quê. Nosso “distraído” parece ter se habituado à lerdeza do general anterior e espera entre um bocejo e outro duas coisas, que o general se insubordine e queira voltar ao ministério. Ou que a noiva escolhida como novo ministro termine de bordar o caprichoso vestido de Ariadne para uma entronização de arromba, com os deuses do Olimpo que baixarão a terra para lhe apor bênçãos especiais, sorte esquizofrênica e ramos de louro à cabeça, impondo-lhe admissão como mais um de seus pares.

Quanto a questão central desses aflitos comentários, os lockdowns, reconheço que a controvérsia sobre eles é grande. Mas há que se observar a realidade do Brasil, sem qualquer patriotada. De fato, este país tem uma população tão disciplinada quanto um exército alemão.

Em verdade, vos digo e asseguro: sem rigor militar, sem fiscalização paralisante, sem multas pesadas, nossas doces e “distraídas” autoridades podem pedir de joelhos o distanciamento social e que todos fiquem bem guardadinhos em casa. Será o caminho perfeito para a população desaparecer desta para outra. Onde de imediato as praias, os bares, as baladas e, sobretudo, as conduções públicas estarão repletas de milhões de seres desencarnados. Dançando, batucando, e aos gritos de evoé. Festejando tudo e beijando todos, grudadinhos uns aos outros.

Ainda bem que o Valor Econômico acaba de publicar em manchete que estrelas da economia exigem, para arrefecer a contaminação, um lockdown nacional. Eu disse nacional. Tal como muitos países sensatos procederam para tentar cortar o mal pela raiz. Uma vida sequer vale mais que um boteco entupido a celebrar com cervejadas e petiscos.

“O fio de Ariadne – o conhecimento do caminho de volta da obscuridade à luz – é acessível a toda a alma humana capaz de se despojar de velhas ideias e preconceitos seculares, para se iniciar nos caminhos da evolução e do aperfeiçoamento individual”.


RICARDO CRAVO ALBIN – Jornalista, Escritor, Radialista, Pesquisador, Musicólogo, Historiador de MPB, Presidente do PEN Clube do Brasil, Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin, Colunista e Membro do Conselho Consultivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre.