Por Pedro Augusto Pinho –

Escrevi, neste mês de janeiro/2022, “Imprensa ideológica, governo de ocupação” onde comentava a matéria de “O Globo”, em 01/01/2022, “Proteção Externa”, incentivando a classe média brasileira a colocar sua poupança no exterior. Em consonância com esta matéria, apresentava entrevista com representante do banco suíço UBS que parecia dar ultimato para a “oportunidade” (!) de aplicar em fundos estrangeiros.

Como em campanha articulada, em “O Estado de S. Paulo”, de 28/01/2022, na “Coluna do Broadcast” (B13), tem principal título: “Gestores de fundos veem oportunidades e reabrem captações após resgates”.

Diversos comentários são pertinentes a esta campanha das finanças apátridas que, como até os mais ingênuos já sabem, governam atualmente nosso País.

Vamos tratar de um dos temas do nosso artigo, anteriormente referido: a perda assegurada nas aplicações financeiras.

Mantenho, por motivos óbvios, anonimato para correspondência recebida após a divulgação do “Imprensa ideológica, governo de ocupação”. Trata-se de um extrato de conta do UBS Switzerland AG.

A pessoa, em março de 2011, aplicou no fundo, obviamente recomentado pelo gerente do UBS, US$ 600.000,00. Trata-se, com grande probabilidade, de pessoa da classe média favorecida, que conseguiu acumular o equivalente a um milhão de reais e deve ter ficada receosa com o Governo Dilma Rousseff, que se iniciava.

Após 10 anos aplicados, os 600 mil dólares haviam se transformado em US$ 516.000,00 e deixado como pagamento ao UBS, sob diversos títulos, US$ 62.945,00.

Na verdade não me surpreendeu. Por diversas vezes, desde que foram constituídos os “gestores de ativos” no final do século passado início do século XXI, pude demonstrar que as denominadas crises que assolaram diversas regiões do mundo, desenvolvido e subdesenvolvido, a partir de 1987 até 2002, nada mais fizeram do que promover a concentração de renda em alguns “gestores” ou “fundos”, que passaram a adquirir ativos empresariais e recursos nacionais, dominando inteiramente a economia mundial.

Hoje tratar, por exemplo, dos Estados Unidos da América (EUA) ou da França, ou da Alemanha, em princípio é um erro, pois por trás destes governos estão os gestores de ativos que controlam também todas as grandes empresas, nos mais diversos segmentos de negócio.

As maiores petroleiras atuais ou são estatais, como a Saudi Arabian Oil Company, a Petrochina, a Sinopec, ou são dos fundos apátridas (BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity, BNY Mellon, JPMorgan) ou, caso único, estatal-gestores: Shell Oil Company. As maiores farmacêuticas pertencem aos gestores: Johnson & Johnson, Pfizer, Roche, Novartis, Merck, GSK. As principais montadoras, empresas industriais são dos gestores: Volkswagen, Hyundai, Mercedes Benz, Boeing, Fiat, Toyota e assim por diante.

O processo de acumulação é o mesmo. Lançam fundos de investimentos, captam poupanças, articulam crises com dívidas, os tesouros, para “impedir o risco sistêmico”, transferem impostos para os gestores por meio das empresas controladas e bancos, obviamente deles, os aplicadores perdem na razão inversa de suas aplicações. Isto é, quem aplica 10 perde até 100%, quem aplica bilhão, no máximo, perde 1%. E o processo de concentração se acentua.

Veja a “crise 2008-2010”, denominada do subprime. Transferiu para os gestores de ativos as disponibilidades do tesouro estadunidense, francês, alemão e tantos outros. Dinheiro que deveria estar sendo aplicado nestes mesmos países cuja crise de desemprego, campanhas discriminatórias, miséria e morte por covid assombram.

O prezado leitor deve estar se perguntando, mas os políticos, os magistrados, as fortunas nacionais não estão vendo isso? Não estão adotando providências?

A resposta é não.

E eu coloco uma pergunta: que arma se usa para tirar o máximo, inclusive a personalidade e o caráter de uma pessoa? O suborno, a chantagem, a ameaça maior que possa atingir um ser humano. Com a imensa quantidade de recursos financeiros, com milícias atuando em todo mundo a seu serviço, forjando irrealidades a que dão um nome de fantasia “fakenews” ao invés do nome direto: “mentira”, “calúnia”, “crime contra honra”, as finanças encurralam, subornam, inutilizam principalmente aqueles que já chegam ao poder fragilizados com as rachadinhas, as vendas de sentença, a conivência com o crime organizado e desorganizado.

O primeiro passo é entender esta realidade do mundo após 1990, ou seja, quando as finanças tomaram conta dos principais governos e do sistema financeiro internacional. Quando obtiveram as desregulações financeiras, a lei universal do Consenso de Washington e a derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), com as perestroika e glasnosts gobarchevianas.

O mundo pré e pós 1990 são dois mundos distintos. E o Brasil, infelizmente fez a opção errada em 1990 colocando uma pessoa das finanças apátridas no poder. A partir daí foi ficando cada vez mais difícil reaver para os brasileiros o Brasil.

E é disso que se trata hoje. O Brasil contra o mercado. Não há meio termo pois o mercado quer e está destruindo o Brasil. A convivência é a do escorpião com o sapo. Impossível.

PEDRO AUGUSTO PINHO é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), avô e administrador aposentado.

Publicado inicialmente no Pátria Latina. Envie seu texto para mazola@tribunadaimprensalivre.com ou siro.darlan@tribunadaimprensalivre.com


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