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O governo-desastre de Bolsonaro pertence aos militares
Presidente da República, Jair Bolsonaro durante revista às tropas. (Crédito: Marcos Corrêa/PR)
Colunistas, Política

O governo-desastre de Bolsonaro pertence aos militares 

Por Roberto Amaral

A disjuntiva Bolsonaro-exército não passa de uma trampa que só engana aqueles espíritos simplórios que precisam de ilusões para aplacar seus sonhos liberais: na tragédia de nossos dias, o capitão é a montaria selada pelos generais para atravessar o Rubicão sem molhar as botas. Por vezes, é certo, o potro mal adestrado aparenta resistir ao cabresto, mas tudo não passa de encenação; logo, o cavaleiro encurta a brida, pois a tropa marcha em ordem unida. Confundir como autonomia sobre a rédea o corcovear do pangaré de má índole equivale supor que o sol se move em torno de seu satélite.

Não há o lado “bom” e o lado “mau” do governo, não há um lado profissional e um ideológico, o gabinete do ódio e o gabinete do bem.

No terceiro andar do palácio do planalto todos rezam pela mesma cartilha, falam a mesma língua, compartilham os mesmos preconceitos ideológicos e defendem os mesmos interesses. Tampouco há um exército que se identifica com o capitão e aquele que se incomoda com seu primarismo. O governo é um só: militar na feição, na índole, nos projetos, no comportamento e, até, na pobreza de visão histórica.

Não se aposte em crise entre os fardados para que se veja ao fim o governo nominalmente chefiado por Jair Messias Bolsonaro, pois a espinha dorsal, o centro e cérebro do poder é o estado-maior do exército. Sem território por defender, pois ameaças não se conhecem, a chamada força de terra é hoje uma pesada e caríssima estrutura burocrática. E festejemos logo a inexistência de mouros na costa, pois, se os tivéssemos, deles não saberíamos como nos defender, eis que nos falta aquilo que faz respeitável uma força armada: a capacidade de dissuasão. Ora, não temos nem armas nem equipamentos modernos, nem autonomia industrial ou tecnológica. Nossos vizinhos, felizmente, não nos ameaçam, pois padecem a mesma pobreza de fogo. Em face das grandes potências militares, as que poderiam nos ameaçar, não temos condições de enfrentamento.

Sem inimigos a enfrentar, nossas forças armadas inventaram o inimigo interno, e dar-lhe combate transformou-se no leitmotif da carreira, a razão de ser do soldado; a esse pobre objetivo chamam “defender a Pátria”, e para defendê-la nosso homem fardado está disposto a matar e morrer. Para isso são treinados, adestrados e condicionados, racional e psicologicamente, soldados rasos, capitães e generais. Inimigos internos são os que em qualquer momento estiverem empenhados em apressar o parto da história; os que lutem pelo desenvolvimento soberano, que combatam a concentração de renda e propugnem a igualdade social; são os que defendem os direitos das mulheres, dos índios, dos negros e da população lgbt; são hoje, também, os que defendem o meio-ambiente e as terras dos índios, que em priscas eras tiveram a guarida de homens como o Marechal Rondon, cuja biografia o general Hamilton Mourão certamente desconhece.

Inimigos são todos os que denunciam a atual ordem econômica e apontam para alternativas humanistas e éticas. Foi inimigo o varguismo, a partir de quando o antigo ditador entrou a liderar o trabalhismo, porque os militares, que haviam com ele sustentado a ditadura do Estado Novo, passaram a temer a emergência das massas, quando a repressão perdia forças e a redemocratização estava à vista. Inimigos eram os nacionalistas; tidos como inimigos dos EUA, haveriam de ser instrumentos de Moscou. Hoje, a não ser os néscios e os muito sabidos, ninguém mais fala em ameaça do comunismo internacional, e a China fundada por Mao Zedong é nossa principal parceira comercial. O projeto militar, perdidas as bandeiras aglutinadoras de anos passados, volta-se para a consolidação de um capitalismo subalterno, um globalismo que desfaz as fronteiras nacionais e territoriais, à mercê das multinacionais sem pátria, dependente da acumulação primitiva, da concentração da propriedade e da renda, um estado manietado pelo monopólio financeiro-especulativo internacional, um capitalismo que precisará de muita força bruta, ou seja de militares à solta, para conter a revolta social que desencadeará.

Há os que, em sinceros artigos e comentários de imprensa, reclamam o fato de os generais não haverem contido o capitão e punido o colega intendente. Ora, os engalanados não teriam por que conter o que estimulam, a saber, a partidarização do exército, cujo anverso é a militarização da política.

Igualmente, não há que falar em descumprimento das regras disciplinares com a impunidade do general intendente inepto em logística, pois elas não valem para os oficiais superiores: onde estava esse regimento quando, em 1961, o general Odylio Denys liderou uma intentona para impedir a posse do presidente da república? Quando o brigadeiro João Paulo Burnier organizou uma força tarefa para assassinar inimigos da ditadura, o punido foi o capitão Sérgio Miranda de Carvalho, do Para-Sar, que a denunciou. Que aconteceu com o general Villas Bôas quando, infringindo regimentos e leis, violentando a independência de um poder da república, chantageou o STF?

O governo que temos é militar, a responsabilidade presente e histórica é dos militares, tanto quanto é deles a responsabilidade pelos crimes (políticos, civis e penais), pelos sequestros, pelas torturas e pelos assassinatos, impunes, cometidos pelos fardados (de oficiais superiores a sargentos e cabos) durante a ditadura instaurada em 1964. Crimes de cujas consequências ainda não nos livramos, porque ainda não nos livramos da preeminência da espada sobre a vida civil. É a estrutura militar (criada pelos militares, mantida intocável pelos militares) que excreta espécimes como o coronel Brilhante Ustra, o brigadeiro Burnier e o capitão Bolsonaro. Este é bem conhecido pelos seus colegas, que, aliás, o salvaram de uma expulsão das fileiras do exército, sem todavia o livrarem do julgamento moral do general-ditador Ernesto Geisel: “Um mau militar”. Sua folha corrida como parlamentar do baixíssimo clero, sua caolha visão de mundo, sua inteligência capenga, sua cultura pedestre, suas dificuldades cognitivas, sua ideologia protofascista e expressa por meio de um discurso tatibitate, mesmo quando lê, eram conhecidos por todos e foram exatamente esses defeitos, de formação e caráter (dos quais o alto e baixo comando não podem alegar desconhecimento) que o fizeram escolhido pelo general Villas Bôas como candidato do “partido militar”, ensejando a manipulação das eleições de 2018, inaugurando assim esta subespécie de golpe de Estado institucional: ao invés de intentar impedir a candidatura de Lula, líder nas pesquisas de intenção de voto. Agora dizem por todos os cantos, sem pedir reserva, que é “inadmissível” a volta de um governo de centro-esquerda.

As forças armadas brasileiras, que já conheceram melhores lideranças, são divisíveis entre “alas” de bom e mau comportamento; elas são, do ponto de vista ideológico, uma unidade: o partido da ordem, isto é, do statu quo, da paralisia, ainda quando implique atraso. Sem mandato da soberania nacional, as forças armadas, de especial no período republicano, assumem o poder de curatela sobre a nação, tratada permanentemente como incapaz, pródiga, sem discernimento para escolher seu caminho; ditam os limites de sua liberdade e vigiam seus sonhos, proclamam o que pode e principalmente o que não pode fazer ou pretender ser a nacionalidade. E vezes sem conta resolve pô-la de castigo, sob as mais diversas formas de governos oligárquicos, reacionários e autoritários.

É tolice a expectativa de cisão entre os generais. Eles, sem riscos, reconquistaram o poder, e muito degustam suas benesses, para agora se atormentarem com dúvidas éticas ou cívicas. E não esperemos a salvação da democracia mambembe pela mãos de um Lott redivivo, como a esquerda ortodoxa confiava em 1964 que os “generais do povo” ou o “dispositivo militar do general Assis Brasil” lançassem por terra a conspiração da direita. A única força capaz de deter o militarismo na sua forma atual e construir uma nova ordem, democrática e voltada para o interesse nacional, é aquela derivada da organização popular.

Não é inteligente ficarmos, sebastianamente, esperando o salvador da pátria: como Godot, ele pode não vir; mas, se vier, só nos ajudará se for como instrumento da mobilização popular, por onde começa e termina a reorganização nacional, a única que possibilita a ruptura, para a qual o líder messiânico será sempre decisivo, embora jamais seja força suficiente.


ROBERTO AMARAL – Escritor, jornalista, cientista político, ex-ministro de Ciência e Tecnologia, colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre. Em 2015, foi nomeado conselheiro da Itaipu Binacional, foi presidente do Partido Socialista Brasileiro. www.ramaral.org

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