Por Clarice Lispector

Texto publicado (Folha de SP, por Soares Feitosa/2011) originalmente em forma corrida (prosa) e “rearrumado” em versos livres, sem a autorização do autor, mas como homenagem ao intenso conteúdo poético.

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O ano de ver

através do vidro o eclipse do sol contra a neblina

pela janela da infância,

o ano de ver as primeiras imagens de

minha mãe,

que era uma Greta Garbo linda

com ombros altos e cabelo de coque “bomba atômica”

e lábios vermelhos, o ano

da coqueluche em que meu pai me levou de avião até 4.000 metros

para curar a tosse entre nuvens,

o ano de temer o quarto onde

meus pais conceberiam

minha irmã, o ano de olhar árvores, bichos

e gente como se eu morasse

fora do mundo (mistério que até hoje dura),

o ano do medo de levar porrada nas ruas da infância, o ano

das pernas das mulheres, colunas altas e distantes

(até hoje),

o ano dos fantasmas do fundo do corredor,

o ano do cachorro

atropelado, o ano dos meninos se comendo de solidão,

 o ano de ficar olhando o vento no quintal,

o ano dos formigueiros,

o ano do sarampo e sua lâmpada vermelha,

o ano da catapora, o ano da luz azul do quarto da pneumonia de minha irmã,

o ano da cabeça quebrada, o ano da cara quebrada,

o ano de entender o porquê

dos miseráveis do morro da Mangueira

perto de minha casa,

 

o ano de ver o primeiro filme de minha vida, o “Ladrão de Bagdá”,

e ficar sonhando com as coxas da odalisca no tapete voador,

o ano dos balões no céu, o ano do Mercury “grená” de meu pai

brilhando na luz da rua,

o ano do cuspe, o ano da porrada na esquina,

o ano dos palavrões, o ano da “merda” e da “puta que pariu”,

o ano da inveja, o ano da bicicleta, o ano da primeira

namorada que me tratava

como nada,

o ano de temer a Deus e de contar

meus crimes aos padres negros de quem eu beijava a mão,

o ano em que um padre me deu um beijo na boca e eu fugi

com pânico na alma,

o ano do Porcolino, do Pernalonga, o ano do Hortelino Trocaletra,

das mil e uma noites, o ano da mula-sem-cabeça e do mendigo

que dava mijo para a mãe, o ano

da camisa-de-vênus boiando na beira da praia, o ano do negro

comendo a empregada no quarto de passar roupa, o ano da

febre, o ano da violência dos colegas de colégio, o ano dos

padres jesuítas sofrendo de solidão nas clausuras e o ano

das lâmpadas tristes das noites do colégio,

 

o ano das velas de cera

na igreja, o ano dos paramentos, o ano do coroinha sem fé, o ano

do covarde,

o ano do perigo de ser currado nos fundos do colégio,

o ano do soco na cara do mais forte e do sangue no nariz do valentão,

o ano

da descoberta do orgulho,

o ano do Tarzan,

o ano do Super-Homem, o ano da porra,

o ano da punheta de esguicho que ia até o teto de ladrilho

por causa da primeira mulher de biquíni na praia,

o ano da punheta pela empregada de peitos grandes e que deixava

quase tudo,

o ano da dor nos rins, o ano

de entrar no porão com a menina,

o ano de sentir o gosto de cuspe da menina,

o ano de sentir o cheiro

do entrepernas da menina e ficar

com aquele cheiro até hoje,

o ano da primeira

mulher e, antes da primeira mulher,

o ano da descoberta da literatura

e de Rimbaud e o ano

de ficar escrevendo o dia inteiro

numa febre

de descobrir qualquer coisa que ainda acho que vou achar,

 

o ano agora sim, da primeira mulher,

uma aeromoça louca da Panair que parecia uma odalisca

caída do céu,

o ano do meu corpo e do corpo da mulher,

o ano das lágrimas quentes, o ano

da solidão,

o ano das pernas cruzadas dos primeiros puteiros

visitados,

o ano do Mangue, da indescritível visão do Mangue que só Segall conheceu,

com as mil mulheres tremendo a língua para fora e

de calça e sutiã nas calçadas, o ano dos bordéis antigos da luz mortiça,

o ano das coxas, dos peitos, o ano cabeludo,

o ano oleoso, o ano das peles, o ano dos vasos de louça,

o ano de nada entender,

o ano da gonorréia, o ano de Thereza e de comer o primeiro amor e de flutuar

de paixão a um palmo das calçadas de Copacabana,

 

o ano da lua dourada, do sol vermelho, o ano de Ipanema,

de Leila Diniz,

o ano dos gritos

da mulher amada no colchão sujo e esfiapado que era um aparelho do Partido

Comunista numa noite de chuva,

o ano do amor e da revolução,

as duas coisas se confundindo

(“serão as bombas ou meu coração batendo?” diria o Bogart em “Casablanca”),

o ano da UNE

pegando fogo,

o ano dos exilados, o ano de Corisco, o ano de Tom e Vinicius,

 

o ano do “Carcará”, o ano do cinema

novo da noite negra do Ato 5, o ano que não terminou,

o ano da boca fechada, o ano da boca no cano de descarga, o ano do nervo

do dente exposto na boca do torturado, o ano das unhas

arrancadas,

o ano dos gritos,

o ano dos guerrilheiros

suicidas, o ano de cortar

a barriga com a faca de bambu, o ano de cortar

os pulsos com gilete

enferrujada,

o ano das cabeças

muito loucas, o ano de viver

perigosamente,

 

o ano da mescalina e do ácido, o ano das pernas e

dos braços virando cobras na “bad trip” da beira da praia, o ano

das ondas vermelhas e céus tangerina,

o ano de Copacabana

virando gelatina colorida,

o ano de Janis Joplin de porre comigo

num puteiro baiano cantando ponto de candomblé,

o ano da esperança nova, o ano de Nelson Rodrigues,

de Darlene Glória,

o ano das filhas nascendo dentro de um buraco estrelado,

o ano da esperança de sentido,

o ano da inocência,

o ano da ingenuidade, o

o ano do leite,

o ano do ventre molhado, o ano dos quartos escuros,

o ano da vida, o ano do sol, o ano do jambo vermelho,

o ano das formigas, o ano das bonecas,

o ano do olho furado, o ano de ficar

louco,

 

o ano do corno, o ano do babaca, o ano de comer mulher,

o ano de chorar, o ano de aprender a viver de novo,

o ano do “vamos ver”, o ano do “que será o amanhã?”,

o ano do cachorro, o ano da vaca louca, o ano da cachorra no ar,

o ano da beira do

abismo,

 

o ano da volta à democracia, o ano do não, o ano do sim,

o ano de Collor, o ano do Itamar, o ano da hiperinflação,

o ano da inflação zero,

o ano dos Mamonas,

o ano dos caruarus, o ano dos carajás,

o ano dos genovevas, o ano dos cachorros quentes explodindo,

o ano dos desacontecimentos, o ano dos cabelos brancos,

o ano do último vôo livre de minha mãe.

1996,

o ano da expectativa,

o ano dos adiamentos, o ano da

esperança,

o ano

que ainda não começou e acaba hoje.

1996,

o ano

que vai começar em 97, feliz ano novo…


Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, foi uma escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia. Autora de romances, contos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka (fonte: Wikipédia)