Categorias

Blog Post

Em recessão, não há limite para emissão de dinheiro na economia
Colunistas

Em recessão, não há limite para emissão de dinheiro na economia 

Por José Carlos de Assis

A maioria dos economistas progressistas me conhece como um aplicado professor keynesiano, mas nem todos sabem que dei um passo adicional na doutrina econômica ao me filiar a “finanças funcionais”, de Abba Lerner. Evitando contornos teóricos, “finanças funcionais” diz que um governo que emite a própria moeda não tem restrições de expansão da ou de dívida, exceto quando a economia esgota a capacidade ociosa de seu sistema produtivo. É possível que haja também fuga de moedas, que pode ser resolvido com controle de capitais.

A sabedoria desse postulado expõe o principal elemento de eficácia produtiva na economia contemporânea, em confronto direto com a principal praga das últimas décadas, a financeirização. Mas vamos a uma explicação detalhada. A economia em recessão indica falta de dinheiro em circulação. Se você aumentar o fluxo de dinheiro, mediante emissão monetária ou fiscal, você estimulará a produção, sem gerar aumento de preços. Esse processo pode seguir sem inflação até o esgotamento da capacidade ociosa.

Para uma economia em recessão não existe situação mais confortável. Foi o que aconteceu no New Deal e no combate à crise de 2008 pelo governo norte-americano, que expandiram a moeda de forma quase ilimitada, para vencer a recessão. Em verdade, venceram. Os banqueiros, contudo, nunca aceitaram esse resultado. Dois de seus fâmulos, Milton Friedman e Friedrich Hayek, sustentaram a teoria oposta segundo a qual, na recessão, o governo deveria fazer ajuste fiscal, ou seja, contrair a moeda. Seguimos a doutrina ainda hoje.

O fracasso da política neoliberal, observado aqui e na Europa, não reflete uma posição intelectual. É de puro interesse. Assim, quando um economista medíocre como Paulo Guedes recebe de um presidente ignorante a tarefa de ordenar a economia brasileira o estrago que pode ser feito é monstruoso. Um deles decorre da privatização. Estamos às vésperas de destruir uma infraestrutura econômica construída ao longo de décadas, como a Petrobrás e Eletrobrás, sem objeção do próprio Exército, que deveria defender a estratégia brasileira.

É importante assinalar, para não dizer que sou um defensor solitário de “finanças funcionais”, que o economista André Lara Resende, um dos pais do Real, abraçou recentemente essa causa. No meu caso, traduzi o livro do notável economista norte-americano L. Randall Wray, ainda nos anos 90, chamado “Understanding Modern Money”, ou “Trabalho e Moeda Hoje”. Com a versão, quis dar ênfase a uma proposta fantástica de Wray de acabar com o desemprego com base numa política de pleno emprego ancorada em “finanças funcionais”.


JOSÉ CARLOS DE ASSIS  é jornalista, economista, escritor e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política. Colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre. Foi professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), é pioneiro no jornalismo investigativo brasileiro no período da ditadura militar de 1964. Autor do livro “A Chave do Tesouro, anatomia dos escândalos financeiros no Brasil: 1974/1983”, onde se revela diversos casos de corrupção. Caso Halles, Caso BUC (Banco União Comercial), Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla Maluf), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin (Ronald Levinsohn), Caso TAA. Cada caso é um capítulo do livro. Em 1983 o Prêmio Esso de Jornalismo contemplou as reportagens sobre o caso Delfin (BNH favorece a Delfin), do jornalista José Carlos de Assis, na categoria Reportagem, e sobre a Agropecuária Capemi (O Escândalo da Capemi), do jornalista Ayrton Baffa, na categoria Informação Econômica.

Related posts

Deixe uma resposta

Required fields are marked *