Por Amirah Sharif –

Direito dos Animais!

No início de outubro deste ano, o apresentador Marcos Mion flagrou um jacaré passeando ao lado da piscina de sua casa onde mora com a família, em São Paulo.

“- Deus! Olha o tamanho do jacaré que apareceu aqui no nosso quintal. Olha isso! Eita, fugiu! Ele entrou no mesmo lugar que entrou da outra vez”, disse Mion ao postar vídeo do “visitante inesperado” nas redes sociais.

Mion chamou os bombeiros que logo deram o devido encaminhamento ao animal. Foi apenas um susto e ninguém ficou ferido.

Pantanal carioca

Temos percebido que tem sido cada vez mais comum vermos nas redes sociais jacarés visitando casas de moradores do Rio de Janeiro. A área onde se localiza o Canal das Taxas (foto abaixo), no bairro do Recreio, no Rio de Janeiro, ficou conhecida como o “Pantanal Carioca” por conta da grande quantidade de jacarés-de-papo amarelo que vivem lá.

Ricardo Freitas, responsável pelo Instituto Jacaré apontou que a grande presença de animais em regiões como o Canal das Taxas ou a comunidade do Terreirão, resulta em uma série de problemas para os animais como as mortes por brigas territoriais, deformação de alguns, seja por conta das lutas ou pela poluição, doenças em razão das águas estarem extremamente poluídas e a caça ilegal.

“Os jacarés são animais territorialistas, principalmente em época de reprodução. Quando as pessoas ficam jogando comida para eles, mesmo que seja na melhor das intenções, eles associam determinados lugares a alimentos e se juntam lá. Com isso, começam a brigar entre eles”, destacou o responsável pelo Instituto Jacaré.

“E não é só isso. Se as coisas continuarem assim, em 100, 150 anos, esses animais estarão extintos no Rio de janeiro. O número de machos é cada vez menor, por vários motivos, e muitos filhotes têm nascido deformados, muito por questões de saúde, influenciados pelas águas sujas onde estão vivendo”, completou o responsável pelo Instituto Jacaré.

Instituto Jacaré

O Instituto jacaré teve seu início a partir da dissertação de mestrado do hoje doutor Ricardo Freitas, em 2006, pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Em 2008, foi dada continuidade aos estudos com caiman em sua tese de doutorado pela Universidade do Rio de Janeiro, onde abordou estudos relacionados à dinâmica populacional da espécie em todo o complexo lagunar de Jacarepaguá.

O Instituto Jacaré propõe a criação de um espaço de preservação e conscientização para proteger os jacarés no Rio de Janeiro. A ideia é estudar, mapear e proteger os animais em uma parte específica da cidade, em ambiente propícia à vida deles. Uma espécie de projeto Tamar voltado aos jacarés.

Fato surreal

No dia 20 de outubro deste ano, durante uma briga na praia da Macumba no Rio de janeiro, um homem, durante uma discussão, pegou um jacaré pequeno e começou a ameaçar o outro transformando o réptil em arma, tendo sua boca apontada para o oponente.

Segundo testemunhas, um salva-vidas tentou conter a confusão, mas também foi ameaçado com o jacaré.

Uma equipe do Corpo de Bombeiros foi acionada para capturar o jacaré e o soltar em seu habitat natural, no Parque Natural Municipal de Marapendi.

Fico aqui conversando com meus botões… Imaginemos que esse pequeno jacaré conte para seus companheiros répteis o que se passou com ele. Se ele conta que um humano o transformou em arma para ameaçar outro humano, acredito que diriam que o jacaré estava se gabando, contando uma mentira.

Mas não é que aconteceu mesmo? Surreal!

Os Aligátores

O estado americano da Flórida é conhecido pelo clima ameno, pelas praias, pela grande população latina residente por lá, pelos parques da Disney e por seus jacarés e crocodilos. Eles são comumente vistos ali porque encontram na região um habitat perfeito para viverem: pântanos, mangues, rios e lagos.

O sul da Flórida é o único lugar onde o crocodilo-americano e o jacaré-americano convivem juntos na natureza.

A principal diferença entre esses dois animais pode ser percebida em sua anatomia. Os jacarés têm um focinho em forma de U, mais largo e arredondado, enquanto os crocodilos possuem um focinho em forma de V, mais pontudo.

Convivência pacífica

A convivência entre moradores do estado da Flórida e esses répteis é pacífica e há pouquíssimos relatos de acidentes, talvez porque os humanos estejam acostumados com a presença dos animais e seguem as recomendações das autoridades, como por exemplo, não oferecer alimentos a eles e não caminhar com seus cães próximos demais de lagos e rios.

Doce lembrança

Há muito tempo (e bota tempo nisso!), precisei fazer uma pesquisa sobre desenhos animados. Wally Gator era um desenho animado americano criado por Hanna-Barbera. O jacaré tinha uma vida de mordomia dentro do jardim zoológico, no entanto Wally se sentia deprimido por estar confinado e queria viver no mundo lá fora. Por essa razão, vivia escapando assim que o guarda do zoológico, Sr. Twiddles, se descuidava. E lá ia Wally Gator aprontar mais uma confusão na cidade apenas por querer conhecer um pouco mais sobre a vida urbana e sobre os humanos.

Mas depois de assistirmos uma cena real no Brasil protagonizada por um humano sem noção que ameaça o oponente com um jacaré, acredito que nem o Wally Gator, ao ler tal notícia, se interesse em fugir do zoológico.

E depois dizem que os jacarés é que são perigosos…

AMIRAH SHARIF é jornalista, advogada, protetora dos animais e colunista do jornal Tribuna da Imprensa Livre. asharif@bol.com.br