Por Ricardo Cravo Albin

Essa pandemia provoca toda sorte de reflexões. Sociólogos, cientistas sociais e todos os que meditam sobre o mundo, em especial nosso despreparado mundinho, o Brasil, que entra ano e sai ano nunca investiu em saúde porque os políticos prometiam e não cumpriam, agora olham seus umbigos inchados com desconsolo e arrependimento. Tarde demais.

A Peste Virótica ceifa vidas a não acabar e o País exige Lockdown em muitas regiões. Inclusive, Meu Deus, no nosso Rio cujo limite de mortes já passou, em muito, do que se poderia imaginar.

Não há como escrever sem refletir sobre a amarga situação em que nos encontramos. Lembro-me aqui, entre macambuzio e revoltado, que nas primeiras das minhas crônicas sobre a tragédia que nos infelicita em “crescendo”, previ o pior, a devastação que ela provocaria aos mais pobres e necessitados, nas favelas da cidade. Desgraçadamente, a onda gigantesca já chegou tal qual tsunami matando os mais desprotegidos – “sempre eles”- como diria o colunista Ancelmo Gois.

Ia escrever hoje sobre a dor que me causou há dias a página nos jornais sobre foto de Sebastião Salgado, que implorava providências sobre mais uma das comunidades-vítimas, a das tribos dos nossos indígenas nos rincões desvalidos – e hoje literalmente devastados por políticas erráticas do Governo. O que, ainda bem, levantou uma solidariedade internacional com a adesão de personalidades de todo o mundo.

Mas há tanto a refletir sobre tudo isso, que me detenho agora sobre o “morto do dia”, possível título macabro de uma coluna, tal o número de amigos e notáveis internados em estado gravíssimo, como Muniz Sodré ou Jesus Chediak. Para quem rezo pronta recuperação.

Silenciou-se há poucas horas UMA VOZ. “E daí”? Perguntaria a insensatez de uma outra voz alojada em Brasília. Daí que essa voz, a de Daysi Lucidi, foi a mais bela da Era de Ouro do rádio no Brasil. Daisy foi rádio-atriz. Certamente que ecoaria de novo um “E daí?” das profundezas semianalfabetas e impiedosas dos palácios.

Daisy Lucidi celebrizou-se pelo papel de “mocinha” (era o personagem principal das radionovelas da gloriosa Rádio Nacional – A PRE-8, quem lembra?). Sua voz adentrava os ouvidos dos brasileiros de norte a sul, acarinhados pela tonalidade cálida, pela clareza da emissão de cada palavra, pelo colorido das emoções de cada frase locutada por ela.

Quando reiterava essas impressões à Daisy, entrevistado dezenas de vezes no seu programa “Alô Daisy” da Rádio Nacional pós novelas, que a emissora teve a gentileza de abrir horário para a eterna mocinha não abandonar os fãs de sua voz, ela apenas balbuciava para mim nostálgica – “ah! Bons tempos”, e desfiava, modesta, nomes de seus companheiros célebres nas não menos célebres radionovelas (campeãs de audiência): Paulo Gracindo, Isis de Oliveira (sua concorrente em primazia de voz), Mario Lago, Gerdal dos Santos, os Faiçal, e tantos e tantos mais.

Testemunho aqui que, ao evocar esses nomes, me emociono. Cada uma dessas vozes era mágica. Porque o ouvinte sequer conhecia o rosto do dono da voz. Que podia ser feio ou bonito, mal importava. Mas há a voz…

No caso de Daisy Lucidi ela era uma lindinha, casada com outro célebre da radiofonia, o Luiz Mendes, speaker – gostaram da citação da palavra inglesa, sinônimo na Era do Rádio de locutor?

Foto tirada dentro do Acervo do Instituto Cravo Albin, e mostra da esquerda para a direita personagens importantes da Era do Rádio: Adelaide Chiozzo, Gerdal dos Santos, Daisy Lucidi ao centro, R. C. Albin, Doris Monteiro e Ellen de Lima.

Saudades, querida Daisy Lucidi, frequentadora assídua dos saraus do nosso Instituto Cultural na Urca.


RICARDO CRAVO ALBIN – Jornalista, Escritor, Radialista, Pesquisador, Musicólogo, Historiador de MPB, Presidente do PEN Clube do Brasil, Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin,  Colunista e Membro do conselho editorial do jornal Tribuna da Imprensa Livre.