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As crianças pedem socorro. E vacina – por Ricardo Cravo Abin
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As crianças pedem socorro. E vacina – por Ricardo Cravo Abin 

Por Ricardo Cravo Albin

“Nada mais trágico quando a verdade se esconde atrás da intimidação.” (José Lins do Rego)

Neste final de ano cercado por tantas aflições em relação ao abraço inoportuno com que o parlamento acabou por votar quase seis bilhões de reais para os partidos políticos, aumento jamais visto em um país em crise (desemprego, inflação, negacionismo e etc.) e ainda por cima mergulhado em cavas preocupações com o aumento dia a dia da nova cepa ômicron aliada à influenza, a rodar como bola veloz pelo mundo inteiro, o assunto que toca os corações por aqui parece ser mesmo a vacinação infantil. E suas atribulações, a fazer do Brasil, segundo acabo de ver ontem na BBC, um país cujo índice de exotismo e contradições parece negar seu histórico de vitórias em relação à vacinação, inclusive nesses últimos meses imunizando quase 70% da população. Além das vitórias de que os europeus ainda se acodem quando o Dr. Sabin colheu no Brasil um triunfo com a extinção da paralisia infantil, décadas atrás.

Pois bem, todo esse orgulho nacional se derrete por conta do contraditório do Ministério da Saúde ao propor ao menos três medidas inaceitáveis para paralisar a vacinação infantil. A primeira, reputo gravíssima, a falta de respeito e intimidação à ANIVISA e a seus funcionários, que aprovaram a imediata vacinação em crianças. O médico (!!!) Queiroga iria além, ao impor às crianças e a seus justamente furiosos pais o ridículo de uma consulta pública – sobre isso a BBC foi impiedosa na ironia que tive o desprazer de ouvir como brasileiro há menos de 24 horas, às duas da manhã. Confesso que a irritação da reclamação britânica me provocou a insônia de uma madrugada acordado, ao ranger dentes de indignação contra o Ministério da Saúde. Irritação patriótica a que se somou à insatisfação de testemunhar nossas crianças vítimas possíveis da pandemia.

Nesses dissabores sofridos, resta-me louvar a firmeza do diretor-presidente da ANVISA, o Almirante Barra Torres. O brioso oficial defendeu a imunização de crianças diante da macabra marca de 301 mortes (até sexta, dia de Natal) entre 5 e 11 anos. A aprovação do imunizante para o grupo intensificou outro procedimento abjeto: diretores e servidores da ANVISA passaram a receber inéditos (e jamais vistos anteriormente neste país) ataques de fanáticos que o Almirante classificou de “puro alinhamento político.” Diz Barra Torres que a escolha da ANVISA pela vacina Pfizer foi conduzida pelos cientistas da Agência, com cuidados até excessivos, além de serem ouvidas todas as sociedades médicas que tratam do tema corona vírus. Ele afirma uma verdade que dói nos corações conscientes: nesses 21 meses de pandemia, temos até aqui pouco mais de 14 mortes de crianças ao mês, ou seja, uma a cada 2 dias. E vai aumentar, prediz o Almirante com ar compungido, quase desalentado.

Barra Torres concluiu que por cautela informou à Polícia Federal o roteiro de 170 ameaças compiladas. Dos 1.600 funcionários que a ANVISA relaciona, ao menos 600 já podem se aposentar. O que de fato já estão a solicitar, velhos que são, agora intimidados com ameaças de fanáticos capazes de tudo. E se essa geração mais antiga e titular das chaves do conhecimento clínico-vacinal for mesmo embora, o Brasil para. Ou fica doente de vez. Aliás, essa campanha negacionista contra a vacinação, de vergonhosa repercussão pelo mundo foi denunciada esta noite por vários telejornais. Inclusive uma estatística preocupante feita por um grupo de jornalistas: todas as vacinações, em especial as pediátricas, para não citar explicitamente a da influenza (razão da atual crise), diminuíram em níveis alarmantes de até 50 a 60%. Uma doença já extinta, o sarampo, por ausência de procura dá sinais de preocupante reaparecimento. E com ela, enquanto a ANVISA e seus 1.600 funcionários são atacados por hordas de fanáticos irracionais, o país diminui seu bom nome, conquistado por sucessivas gerações de patriotas de verdade. E da verdade. Ao que consta nos bastidores, Queiroga quer abandonar de vez a roupa branca de cardiologista para envergar um terno escuro e sombrio de deputado. Para ainda melhor servir ao governo que bajula com inédito alinhamento. Bem fez o governador Claudio Castro ao declarar ontem que vacinará seus dois filhos menores. O mais rápido que puder. Bravo, Governador.

Ciência e cautela são, a cada dia, mais essenciais.

P.S: Recomendo com calor o livro da infectologista Natalia Pasternark “Contra a realidade”, a refletir sobre as origens obscuras da negação à ciência e suas consequências demolidoras. Tal como recomendei semana passada o livro de Margareth Dalcolmo, outra ilustre cientista. Ambas são hoje em dia duas das mulheres mais amadas do Brasil pela insistência apostolar de seus alertas públicos na tevê a favor da saúde da população.

P.S.1: Dia 8 de Janeiro estarei lançando ‘PANDEMIA E PANDEMÔNIO’ na IPANEMA WINE BAR (Rua Gomes Carneiro, 132/112 – Ipanema), dos queridos jornalistas Daniel Mazola e Iluska Lopes, casal de editores desta TRIBUNA DA IMPRENSA LIVRE.

Será no sábado às 19h e teremos degustação de vinhos, oferecimento da Família Brito.

RICARDO CRAVO ALBIN – Jornalista, Escritor, Radialista, Pesquisador, Musicólogo, Historiador de MPB, Presidente do PEN Clube do Brasil, Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin e Membro do Conselho Consultivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre. Em função das boas práticas profissionais recebeu em 2019 o Prêmio em Defesa da Liberdade de Imprensa, Movimento Sindical e Terceiro Setor, parceria do Jornal Tribuna da Imprensa Livre com a OAB-RJ.


Tribuna recomenda!

NOTA DO EDITOR: Quem conhece o professor Ricardo Cravo Albin, autor do recém lançado “Pandemia e Pandemônio” sabe bem que desde o ano passado ele vêm escrevendo dezenas de textos, todos publicados aqui na coluna, alertando para os riscos da desobediência civil e do insultuoso desprezo de multidões de pessoas a contrariar normas de higiene sanitária apregoadas com veemência por tantas autoridades responsáveis. Sabe também da máxima que apregoa: “entre a economia e uma vida, jamais deveria haver dúvida: a vida, sempre e sempre o ser humano, feito à imagem de Deus” (Daniel Mazola). Crédito: Iluska Lopes/Tribuna da Imprensa Livre.

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