Por Daniel Mazola –

Vocacionados para a inquietação e a liberdade, seres maduros exercitam a memória e são fascinados por Política, Filosofia e História, sendo assim estamos abrindo os arquivos e reeditando artigos e reportagens assinadas por Daniel Mazola, Editor-chefe do jornal Tribuna da Imprensa Livre.

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O dia em que a ordem da PM era atirar e bater [25.06.13]

Certamente mais que 1 milhão de pessoas foram as ruas do Rio de Janeiro no dia 20. Venho participando de todas as manifestações. Na primeira havia no máximo 100 pessoas e pouca repressão das forças policiais. Já no dia 20, quando centenas de milhares caminharam da Candelária ao prédio da Prefeitura, os policiais estavam mirando e atirando aleatoriamente em qualquer pessoa, houve pânico generalizado. Alguns poucos manifestantes mais revoltados praticaram atos de violência isolados, mas a Polícia jamais poderia praticar os mesmos atos, e de forma ainda mais intensa e totalmente irresponsável. Helicópteros davam vôos rasantes e ajudavam os militares a se posicionar e cercar os manifestantes. Após muita violência na porta da Prefeitura, milhares de pessoas se dispersaram e muitos foram para a Lapa, onde o Batalhão de Choque promoveu um verdadeiro massacre.

Por muito pouco a covardia, o despreparo e a truculência da tropa não causou uma tragédia de grandes proporções. PMs, Choque, guarda municipal, Caveirão, Bope, etc, lançaram bombas de efeito moral contra tudo e todos, inclusive no Hospital Souza Aguiar no IFCS, em Sindicatos, na Escola de Música, na Faculdade de Direito da UFRJ e no Colégio Pedro II, locais onde diversos lutadores ficaram encurralados e acuados. Eu e minha esposa ficamos acuados no Bar Ernesto, onde pude ver muita coisa, tanto na ida quanto na saída do bar em direção a minha casa.

20 de junho de 2013, Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio (Arquivo Google)

Tudo o que ocorreu por ordem das autoridades são fatos característicos de um regime ditatorial, e que não aconteciam há décadas por aqui. Puro terrorismo estatal. Mesmo assim o saldo foi extremamente positivo: os manifestantes ocupavam toda a Avenida Presidente Vargas, numa passeata pacífica, com a presença de estudantes do ensino médio e de universidades, trabalhadores, idosos e crianças. Muitos levavam flores. Apesar da perseguição desumana e covarde, o sentimento geral é que o próximo protesto precisa ser ainda maior do que este. A versão dominante nos grandes jornais fala apenas dos vândalos e baderneiros, mas a população está desmistificando essa versão no boca a boca, nas conversas do dia-a-dia, pois foi vítima da covardia desmedida contra aqueles que estavam pacífica e ordeiramente se manifestando.

Como sempre faço, participei e observei tudo. Desde 1992 no Fora Collor e o Impeachment, não vi tamanha indignação e revolta nas ruas do Rio. O problema não é apenas o aumento da tarifa de um serviço que deveria ser muito barato ou de graça, em um país riquíssimo como o nosso; os protestos são contra a realidade que lhes é apresentada neste País, onde há séculos se faz uma grotesca experiência político-administrativa-econômica onde miséria absoluta e riqueza total convivem descaradamente.

O que está ocorrendo não vai parar com a revogação dos 20 centavos, é uma legítima revolta popular, um levante nacional, com eixo na juventude, com adesão de milhares de trabalhadores e trabalhadoras jovens e dos setores médios contra todo tipo de Governo e por reivindicações no geral justas: contra o aumento das tarifas, contra gastos da Copa, fora Feliciano, saúde, educação, corrupção, democratização da mídia e os temas relativos a isso. Muitos perceberam que só nas ruas vamos conquistar nossos direitos, e após séculos de descaso com a população, as demandas são muitas!


DANIEL MAZOLA é Jornalista, Editor-chefe do jornal Tribuna da Imprensa Livre, Consultor de Imprensa da Revista Eletrônica OAB/RJ e do Centro de Documentação e Pesquisa da Seccional. Pós-graduado, especializado em jornalismo sindical. Apresentador do programa TRIBUNA NA TV (TVC-Rio). Ex-presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Conselheiro efetivo da ABI (2004 a 2017). Foi Assessor de Imprensa da Federação Nacional dos Frentistas (Fenepospetro) e do Sindicato dos Frentistas do Rio de Janeiro (Sinpospetro-RJ). Vice-presidente de Divulgação do G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira (2010/13), editor do jornal FAFERJ (Federação das Associações de Favelas do Estado do RJ), editor do jornal do SINTUFF (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal Fluminense-UFF), editor do jornal Folha do Centro (RJ), editor do jornal Ouvidor Datasul (gestão empresarial e tecnologia da informação), subeditor de política do jornal O POVO, repórter do jornal Brasil de Fato, radialista e produtor na Rádio Bandeirantes AM1360 (RJ).